a de ver voltar as em­bar­cações; mas quan­do nos vi­mos en­gana­dos, um com­ple­to desân­imo se nos apoder­ou da al­ma. À noite, o céu co­briu-​se de nu­vens es­pes­sas e o mar es­teve ain­da mais ter­rív­el de que na noite prece­dente. Os home­ns, não po­den­do con­ser­var-​se nas ex­trem­idades, re­uni­ram-​se no cen­tro da jan­ga­da e os que não pud­er­am chegar-​se para lã mor­reram quase to­dos. De resto, a junção no meio foi tal que al­guns home­ns foram abafa­dos pe­lo pe­so dos seus ca­ma­radas que caíam so­bre eles. 

  Os sol­da­dos e mar­in­heiros, con­sideran­do-​se per­di­dos, começaram a be­ber em ex­ces­so. En­tão, tor­na­dos fu­riosos, ex­cla­ma­ram que os que­ri­am trair, que to­dos havi­am de mor­rer e ten­taram efec­ti­va­mente de­stru­ir a jan­ga­da cor­tan­do as amar­ras. Os ofi­ci­ais e pas­sageiros, que tin­ham con­ser­va­do a razão, opuser­am-​se a is­so. Travou-​se um com­bate ter­rív­el a golpes de macha­do, de sabres, de baione­tas, de fa­cas. A Lua ilu­mi­na­va es­ta ce­na pa­vorosa. Só o cansaço trouxe al­guns mo­men­tos de tréguas. Aos primeiros clarões do dia ver­ifi­cou-​se que mais de sessen­ta home­ns tin­ham mor­ri­do e re­con­heceu-​se tam­bém uma grande des­graça. Os re­beldes, du­rante o tu­mul­to, tin­ham lança­do ao mar duas bar­ri­cas de vin­ho e os dois úni­cos bar­ris de água; ape­nas ficara um bar­ril de vin­ho para dis­tribuir pe­los sessen­ta home­ns que so­bre­vivi­am. Já neste dia se pro­duzi­ram ac­tos de cani­bal­is­mo. Al­guns home­ns lançaram-​se so­bre os cadáveres e de­vo­raram pedaços de carne. A noite es­teve mais sossega­da, e ape­sar dis­so, ao começar o quar­to dia, con­taram-​se mais doze mor­tos. 

  Pela tarde hou­ve, fe­liz­mente, uma pas­sagem de peix­es-​volantes, dos quais mais de duzen­tos se in­tro­duzi­ram nos es­paços deix­ados pelas peças de madeira. Com o auxílio de um fúsil e de um pedaço de is­ca, con­seguiram-​se acen­der os frag­men­tos de uma pi­pa e for­mar uma fogueira que serviu para coz­er os peix­es, mas em que se colo­cou tam­bém carne hu­mana. 

  Du­rante a noite teve lu­gar um no­vo mor­ticínio: es­pan­hóis, ital­ianos e ne­gros, que até en­tão se havi­am con­ser­va­do neu­trais, tin­ham con­spir­ado lançar ao mar to­dos os seus com­pan­heiros. No dia seguinte, pela man­hã, ain­da havia trin­ta home­ns vivos e en­tre eles grande número de feri­dos. 

  Al­gu­mas pági­nas ex­traí­das da nar­ração da teste­munha, já cita­da, colo­cam di­ante dos ol­hos o quadro das ce­nas medonhas que se seguiram: 

  «Quinze náufra­gos so­mente pare­cia poderem re­si­stir ain­da al­guns dias e to­dos os out­ros, cober­tos de largas feri­das, tin­ham per­di­do quase com­ple­ta­mente a razão. Con­tu­do, tomavam parte nas dis­tribuições e po­di­am, antes da sua morte, con­sumir trin­ta ou quarenta gar­rafas de vin­ho, que, para nós, er­am de um val­or in­es­timáv­el. Re­uni­mo-​nos para de­lib­er­ar; colo­car os doentes a meia ração, era dar-​lh­es a morte ime­di­ata­mente. De­pois de um con­sel­ho pre­si­di­do pe­lo mais hor­ro­roso de­ses­pero, foi de­ci­di­do que os lançaríamos ao mar. Este meio, por muito re­pug­nante, por muito hor­rív­el que nos pare­cesse a nós próprios, as­se­gu­ra­va aos so­bre­viventes seis dias de vin­ho a dois quar­tos por dia. Mas, toma­da a de­cisão, quem se atreve­ria a ex­ecutá-​la? O hábito de ver a morte próx­ima a ar­ras­tar-​nos, a certeza da nos­sa per­da in­falív­el sem este fu­nesto ex­pe­di­ente tin­ha-​nos en­dure­ci­do os corações, tor­na­dos in­sen­síveis a to­do o sen­ti­men­to que não fos­se o da con­ser­vação in­di­vid­ual. Três mar­in­heiros e um sol­da­do en­car­regaram-​se