 des­ta cru­el ex­ecução; desviá­mos os ol­hos e der­ramá­mos lá­gri­mas de sangue so­bre a sorte destes des­graça­dos. En­tre eles es­tavam a can­tineira e o seu mari­do, que an­te­ri­or­mente tín­hamos sal­vo, na ocasião em que iam a afog­ar-​se. Am­bos tin­ham si­do grave­mente feri­dos nos com­bat­es; a mul­her tin­ha par­tido uma coxa, en­tre as pran­chas da jan­ga­da, e um golpe de sabre tin­ha feito ao mari­do uma pro­fun­da feri­da na cabeça. Tu­do anun­ci­ava o seu fim próx­imo. Tín­hamos ne­ces­si­dade de acred­itar que, pre­cip­itan­do o ter­mo dos seus males, a nos­sa cru­el res­olução ape­nas tin­ha dimin­uí­do al­guns in­stantes à me­di­da da sua ex­istên­cia. 

  «Es­ta mul­her, es­ta france­sa, a quem mil­itares, france­ses, davam o mar por tú­mu­lo, tin­ha-​se as­so­ci­ado vinte anos às glo­riosas fadi­gas dos nos­sos exérci­tos; du­rante vinte anos tin­ha lev­ado aos bravos, nos cam­pos de batal­ha, os so­cor­ros necessários ou do­ces con­so­lações. E era no meio dos seus, era pelas mãos dos seus, que ela…! Leitores, que es­treme­ceis ao gri­to da hu­manidade ul­tra­ja­da, lem­brai-​vos ao menos que tin­ham si­do out­ros home­ns, com­pa­tri­otas, ca­ma­radas, os que nos havi­am colo­ca­do em tão ter­rív­el situ­ação. 

  «Um acon­tec­imen­to veio traz­er uma fe­liz dis­tracção ao pro­fun­do hor­ror que nos domi­na­va. De re­pente, uma bor­bo­le­ta bran­ca, do género das que tão vul­gares são em França, apare­ceu es­voaçan­do por' cima das nos­sas cabeças e foi pousar na vela. A primeira ideia que in­spirou a ca­da um de nós fez-​nos con­sid­er­ar este in­sec­to co­mo o men­sageiro que nos trazia a notí­cia de um an­co­radouro próx­imo e abraçá­mos es­sa es­per­ança com uma es­pé­cie de delírio. Mas era o nono dia que passá­va­mos na jan­ga­da; os tor­men­tos da fome di­lac­er­avam-​nos as en­tran­has; já os sol­da­dos e mar­in­heiros de­vo­ravam, com os ol­hos desvaira­dos, es­ta mesquin­ha pre­sa e pare­ci­am na dis­posição de a dis­putarem. Out­ros, con­sideran­do es­ta bor­bo­le­ta co­mo uma en­vi­ada do céu, declararam que tomavam o po­bre in­sec­to de­baixo da sua pro­tecção e im­pediri­am que lhe fizessem mal. Di­rigi­mos pois os nos­sos vo­tos e ol­hares para es­sa ter­ra de­se­ja­da que jul­gá­va­mos a ca­da in­stante ver apare­cer di­ante de nós. É cer­to que não de­víamos es­tar afas­ta­dos, porque as bor­bo­le­tas con­tin­uaram, nos dias seguintes, a es­voaçar em torno da nos­sa vela e no mes­mo dia tive­mos um in­dí­cio não menos pos­iti­vo avi­stan­do uma gaiv­ota que voa­va por cima da nos­sa jan­ga­da. 

  «Pas­saram-​se ain­da três dias em angús­tias in­ex­primíveis; de­sprezá­va­mos já de tal mo­do a vi­da, que muitos não re­cear­am ban­har-​se à vista dos tubarões que nos cer­cavam a jan­ga­da. 

  «Em 17, pela man­hã, o Sol apare­ceu livre de nu­vens. De­pois de ter­mos di­rigi­do orações ao Eter­no, di­vidi­mos uma parte do nos­so vin­ho; ca­da um sa­bo­re­ava com delí­cias a sua pe­que­na porção, quan­do um capitão de in­fan­taria, lançan­do os ol­hares para o hor­izonte, avis­tou um navio e anun­ciou-​o com um gri­to de ale­gria. Re­con­hece­mos que era um brigue, mas es­ta­va ain­da a grande dis­tân­cia. A vista deste navio es­pal­hou en­tre nós uma ale­gria difí­cil de de­scr­ev­er; to­dos jul­gavam cer­ta a sal­vação e davam a Deus in­fini­tas acções de graças. Con­tu­do, os re­ceios vier­am mis­tu­rar-​se às nos­sas es­per­anças; endi­re­itá­mos os ar­cos das bar­ri­cas, às ex­trem­idades dos quais pren­de­mos lenços de difer­entes cores. Um homem, aux­il­ia­do por to­dos, subiu ao topo do mas­tro e ag­ita­va es­tas pe­que­nas b