an­deiras. Du­rante mais de uma ho­ra, flu­tuá­mos en­tre a es­per­ança e o temor; uns jul­gavam ver au­men­tar o navio, e out­ros afir­mavam que se afas­ta­va de nós. Estes úl­ti­mos er­am os úni­cos que não tin­ham os ol­hos fasci­na­dos pela es­per­ança, porque o brigue de­sa­pare­ceu.

  «Do delírio da ale­gria passá­mos ao do aba­ti­men­to e da dor. Para acal­mar o nos­so de­ses­pero quise­mos procu­rar al­gu­mas con­so­lações no sono. Du­rante a véspera, tín­hamos si­do de­vo­ra­dos pe­los ar­dores de um sol es­brasea­do; neste dia dis­puse­mos a vela em for­ma de ten­da e deitá­mo-​nos to­dos por baixo. Propôs-​se en­tão traçar­mos nu­ma tábua um re­sumo das nos­sas aven­turas, es­crever­mos os nomes por baixo des­ta nar­ração e fixá-​la na parte su­pe­ri­or do mas­tro, na es­per­ança que chegaria às mãos do Gov­er­no ou às das nos­sas famílias. De­pois de ter­mos pas­sa­do duas ho­ras en­tregues às mais penosas re­flexões, o mestre ar­til­heiro da fra­ga­ta quis ir à proa da jan­ga­da e saiu de de­baixo da ten­da. Mal tin­ha pos­to a cabeça de fo­ra, voltou-​se para nós soltan­do um grande gri­to. A ale­gria es­ta­va-​lhe de­sen­ha­da no ros­to; as mãos es­ten­di­das para o mar; res­pi­ra­va com di­fi­cul­dade. Tu­do o que pôde diz­er foi: "Salvos! Eis o brigue que vem so­bre nós!" E era ele, com efeito, à dis­tân­cia quan­do muito de meia ho­ra, ten­do to­do o pano e gov­er­nan­do de maneira a vir pas­sar muito próx­imo de nós. Saí­mos de de­baixo da ten­da com pre­cip­itação; até aque­les, que enormes feri­das nos mem­bros in­fe­ri­ores ret­inham deita­dos havia muitos dias, se ar­ras­taram para a popa da jan­ga­da para gozarem da vista desse navio que vin­ha ar­ran­car-​nos a uma morte cer­ta. Abraçá­va­mo-​nos com trans­portes que tin­ham muito de lou­cu­ra, e lá­gri­mas de ale­gria sul­cavam-​nos os ros­tos dis­seca­dos pelas mais cruéis pri­vações. 

  «To­dos agar­raram nos lenços ou em difer­entes bo­ca­dos de pano para faz­erem sinais ao brigue que se aprox­ima­va rap­ida­mente. Al­guns out­ros, de joel­hos, agrade­ci­am com fer­vor à Providên­cia, que nos resti­tuía tão mi­la­grosa­mente a vi­da. A ale­gria au­men­tou quan­do avistá­mos no mas­tro de mezena uma grande ban­deira bran­ca, e ex­clamá­mos: «É a france­ses que va­mos de­ver a sal­vação» Re­con­hece­mos quase ime­di­ata­mente o Ar­gus, que es­ta­va en­tão a dois tiros de es­pin­gar­da. 

  « ... Em pouco tem­po fo­mos trans­porta­dos para bor­do. En­con­trá­mos o tenente de serviço na fra­ga­ta e al­guns out­ros náufra­gos. A com­paixão es­ta­va pin­ta­da em to­dos os ros­tos, e fazia-​lh­es der­ra­mar lá­gri­mas quan­do os ol­hos se de­mor­avam em nós. Fig­urem-​se quinze des­graça­dos quase nus, com o cor­po e o ros­to bati­dos de um rig­oroso sol. Dez dos quinze di­fi­cil­mente po­di­am mover-​se. Os nos­sos mem­bros es­tavam sem epi­derme; uma pro­fun­da al­ter­ação nos es­ta­va de­sen­ha­da nas feições; os ol­hos en­co­va­dos e quase fer­ozes, as bar­bas com­pri­das davam-​nos uma ex­pressão mais hedion­da; não éramos uma som­bra do que fôramos. Achá­mos a bor­do do brigue muito bom cal­do que nos tin­ham prepara­do, des­de que fôramos vis­tos. De­ram-​nos os cuida­dos mais gen­erosos e mais aten­tos; pen­saram-​nos as feri­das, e no dia seguinte muitos dos mais doentes começaram a lev­an­tar-​se ...»

  De­pois da nar­ração do ter­rív­el dra­ma cu­jo úl­ti­mo episó­dio foi traça­do com tan­to vig­or pe­lo pin­cel de Ger­icault, di­re­mos muito re­sum­ida­mente o que sucedeu às seis em­bar­cações que tin­ham aban­don­ado a jan­ga­da. 

  Os es­caleres do Sr. De Chau­mareys e do gov­emador che