garam a São Luís, sem se terem ex­pos­to a peri­go al­gum sério. A chalu­pa chegou próx­imo da cos­ta, ao norte do cabo Mir­ick, de­pois de ter gar­ra­do várias vezes. Os pas­sageiros, sofren­do cru­el­mente a sede, pedi­ram que se de­sem­bar­casse; quis-​se retê-​los, ex­pon­do-​lh­es os peri­gos que teri­am a afrontar no de­ser­to, du­rante uma trav­es­sia de per­to de cem léguas, para chegar a São Luís, mas sessen­ta e três ob­sti­naram-​se na sua res­olução e sofr­eram hor­ríveis tor­men­tos nos areais ar­dentes. As pro­visões e a água fal­taram du­rante uma grande parte do cam­in­ho. Fe­liz­mente o Ar­gus avis­tou a car­avana e forneceu-​lhe man­ti­men­tos. En­con­trou um ban­do de mouros que tiraram os vesti­dos aos náufra­gos. Só em 30 de Jul­ho é que en­trou em São Luís, de­pois de ter per­di­do seis pes­soas. A chalu­pa, voltan­do ao largo, en­con­trou o es­caler mais pe­queno e re­ce­beu as quinze pes­soas que este lev­ava, porque já não se po­dia aguen­tar con­tra a vi­olên­cia das va­gas. A canoa maior e o es­caler de oito re­mos jun­taram-​se; nave­garam du­rante al­gum tem­po de con­ser­va, mas as três em­bar­cações de­ram à cos­ta em 8 de Jul­ho e os pas­sageiros tiver­am de refu­giar-​se em ter­ra. A mar­cha fez-​se com or­dem para o Sene­gal, de­baixo da di­recção dos ofi­ci­ais, e, em 11 de Jul­ho, co­mu­nicaram com o Ar­gus que so­cor­reu es­ta car­avana antes da out­ra. Os in­dí­ge­nas vier­am vender-​lh­es al­gu­mas pro­visões; mas o tra­jec­to so­bre a areia aque­ci­da pe­lo ar­dor in­tol­eráv­el do sol foi em ex­tremo fati­gante. Chegaram fi­nal­mente ao ter­mo, em 12 à noite, sem per­da al­gu­ma de home­ns. 

  Foi em 26 de Jul­ho ape­nas que se pen­sou em man­dar um navio na di­recção da Medusa, a bor­do da qual se sabia, no en­tre­tan­to, que tin­ha fi­ca­do um grupo de home­ns. A go­le­ta en­car­rega­da des­ta mis­são teve ven­tos con­trários e chegou próx­imo da fra­ga­ta naufra­ga­da cin­quen­ta e dois dias de­pois do seu aban­dono. Ape­nas se acharam três dos dezas­sete des­graça­dos que não tin­ham po­di­do em­bar­car na chalu­pa. Dez dias antes, doze den­tre eles, ven­do ex­aus­tos os víveres, tin­ham procu­ra­do sal­var-​se nu­ma pe­que­na jan­ga­da que con­struíram; mas, se­gun­do to­das as prob­abil­idades, tin­ham mor­ri­do. Dois tin­ham su­cumbido de­pois. Trans­portaram-​se os so­bre­viventes para o Sene­gal, onde re­cu­per­aram a saúde. 

  O Sr. De Chau­mareys, chama­do a França, foi jul­ga­do em con­sel­ho de guer­ra. Declara­do re­spon­sáv­el da per­da da Medusa por im­perí­cia, foi risca­do da lista dos ofi­ci­ais de Mar­in­ha, jul­ga­do in­ca­paz de to­do o serviço e con­de­na­do a três anos de prisão mil­itar. 

  NAUFRÁ­GIO DO COL­IB­RI

  Re­latório do Sr. An­quez, vol­un­tário, 

  ao co­man­dante da es­tação Naval de Bour­bon

  A bor­do do Berço, 23 de Abril de 1843 

  Sen­hor Co­man­dante, 

  Aproveito o primeiro mo­men­to de des­can­so, que me deixa a febre, para cumprir o penoso de­ver de ap­re­sen­tar um re­latório, tão cir­cun­stan­ci­ado quan­to pos­sív­el, so­bre os acon­tec­imen­tos que pre­ced­er­am, oca­sion­aram e seguiram o ter­rív­el sin­istro do brigue Col­ib­ri, a bor­do do qual me tin­ha em­bar­ca­do co­mo vol­un­tário de Mar­in­ha. 

  Em 25 de Fevereiro, pelas cin­co ho­ras e meia, ten­do fun­dea­do no an­co­radouro de Mouroun­san­ga, a corve­ta Berço fez o sinal de apar­el­har: os três navios, o Berço, o Ex­plo­rador e o Col­ib­ri, fiz­er­am-​se de vela com bom tem­po, pe­que­na brisa de noroeste var­iáv­el, con­ser­van­do-​se per­to uns dos out­ros para do­brarem as il­has Radamas. Pelas seis ho­ras, a corve­ta fez o sina