Title: Naufrágio de Sepúlveda “História Trágico-Marítima”
Author: Bernardo Gomes de Brito
CreationDate: Wed Jul 15 11:55:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Feb 04 18:20:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Naufrá­gio de Sepúlve­da “História Trági­co-​Marí­ti­ma”

  Bernar­do Gomes de Brito

  Tit­ulo Orig­inal Naufrá­gio do Galeão Grande "São João" na Ter­ra do Na­tal no Ano de 1552.

  © 1996, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8127-37-5

  Lis­boa, Jul­ho de 1996.

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  NAUFRÁ­GIO DE SEPÚLVE­DA

  Naufrá­gio do galeão grande 

  «S. João» na ter­ra do Na­tal 

  no ano de 1552 

  Par­tiu neste galeão Manuel de Sousa, que Deus per­doe, para faz­er es­ta de­saven­tu­ra­da vi­agem de Cochim, a três de Fevereiro do ano de cin­quen­ta e dous. E par­tiu tão tarde por ir car­regar o Coulão, e lá haver pou­ca pi­men­ta, onde car­regou obra de qua­tro mil e quin­hen­tas, e veio a Cochim acabar de car­regar a cópia de sete mil e quin­hen­tas por to­da com muito tra­bal­ho por causa da guer­ra que havia no Malavar. E com es­ta car­ga se par­tiu para o Reino po­den­do levar doze mil; e ain­da que a nau lev­asse pou­ca pi­men­ta, nem por is­so deixou de ir muito car­rega­da de out­ras mer­cado­rias, no que se havia de ter muito cuida­do pe­lo grande risco que cor­rem as naus muito car­regadas. 

  A treze de Abril veio Manuel de Sousa haver vista da cos­ta do Cabo em trin­ta e dous graus, e vier­am ter tan­to den­tro, porque havia muitos dias que er­am par­tidos da Ín­dia, e tar­daram muito em ver o Cabo por causa das ru­ins ve­las que trazi­am, que foi uma das causas e a prin­ci­pal de seu perdi­men­to; porque o pi­lo­to An­dré Vaz fazia seu cam­in­ho para ir à ter­ra do cabo das Ag­ul­has, e o capitão Manuel de Sousa lhe ro­gou que quisesse ir ver a ter­ra mais per­to; e o pi­lo­to por lhe faz­er a von­tade, o fez: pela qual razão foram ver a Ter­ra do Na­tal, e es­tando à vista dela, se lhe fez o ven­to bo­nança, e foi cor­ren­do a cos­ta até ver o cabo das Ag­ul­has, com pru­mo na mão, e son­dan­do; e er­am os ven­tos tais, que se um dia ven­ta­va lev­ante, out­ro se lev­an­ta­va poente. E sendo já em onze de Março er­am nordeste, su­doeste, com o cabo de Boa Es­per­ança vinte e cin­co léguas ao mar, ali lhe deu o ven­to oeste, e oés-​noroeste com muitos fuzis. E sendo per­to da noite o capitão chamou o mestre, e o pi­lo­to, e lh­es per­gun­tou que de­vi­am faz­er com aque­le tem­po, pois lhe era pela proa, e to­dos re­spon­der­am, que era bom con­sel­ho ar­rib­ar.

  As razões que davam para ar­rib­ar, foram que a nau era muito grande, e muito com­pri­da, e ia muito car­rega­da de caixaria, e de out­ras fazen­das, e não trazi­am já out­ras ve­las, senão as que trazi­am nas ver­gas, que a out­ra es­quipação lev­ou um tem­po­ral que lhe deu na Lin­ha, e es­tas er­am ro­tas, que se não fi­avam nelas; e que se parassem, e o tem­po crescesse, e lhe fos­se necessário ar­rib­ar, lhe pode­ria o ven­to levar as out­ras ve­las que tin­ham, que era pre­juí­zo para sua vi­agem, e sal­vação, que não havia na nau out­ras; e tais er­am aque­las que trazi­am, que tan­to tem­po pun­ham em as re­men­dar, co­mo em nave­gar. E uma das cousas por que não tin­ham do­bra­do o Cabo a este tem­po, foi pe­lo tem­po que gas­tavam em as amainar para coserem; e por­tan­to o bom con­sel­ho era ar­rib­ar com os pa­pa-​fi­gos grandes am­bos baixos, porque dan­do-​lhe so­mente a vela de proa, era tão vel­ha, que es­ta­va mui cer­to levar-​lha o ven­to da ver­ga pe­lo grande pe­so da nau, e am­bos jun­tos um aju­daria ao out­ro. E vin­do as­sim ar­riban­do, que se­ri­am cen­to e trin­ta léguas do Cabo, lhe vi­rou o ven­to ao nordeste, 