e ao lés-​nordeste tão fu­rioso que os fez out­ra vez cor­rer ao sul, e ao su­doeste; e co­mo o mar que vin­ha feito de poente, e o que o lev­ante fez me­teu tan­to mar, que ca­da bal­anço que o galeão toma­va, pare­cia que o metia no fun­do. E as­sim cor­reram três dias, e ao cabo de­les lhe tornou o ven­to a acal­mar, e fi­cou o mar tão grande, e tra­bal­hou tan­to a nau, que perdeu três ma­chos do leme so-​os pole­gar em que es­tá to­da a perdição, ou sal­vação de uma nau. E is­to se não sabia de ninguém, so­mente o carpin­teiro da nau que foi a ver o leme, e achou fal­ta dos fer­ros, e en­tão se veio ao mestre, e lho disse em seg­re­do, que era um Cristóvão Fer­nan­des da Cun­ha o Cur­to. E ele re­spon­deu co­mo bom ofi­cial, e bom homem, que tal cousa não dissesse ao capitão, nem a out­ra nen­hu­ma pes­soa por não causar ter­ror, e me­do na gente, e as­sim o fez.

  An­dan­do as­sim neste tra­bal­ho, tornou-​lhe out­ra vez a fal­tar o ven­to a lés-​su­doeste, e tem­po­ral des­feito, e já en­tão pare­cia que Deus era servi­do do fim que ao de­spois tiver­am. E in­do com a mes­ma vela ar­riban­do out­ra vez, lançan­do-​lhe o leme à ban­da, não quis a nau dar por ele, e to­da se pôs de ló; o ven­to que era bra­vo lhe lev­ou o pa­pa-​fi­go da ver­ga grande. Quan­do se vi­ram sem vela, e que não havia out­ra, acud­iram com diligên­cia a tomar a vela de proa, e se quis­er­am antes aven­tu­rar a ficar de mar em través, que fi­carem sem nen­hu­ma vela. O tra­que­te de proa não era ain­da acaba­do de tomar quan­do se a nau atrav­es­sou, e em se atrav­es­san­do lhe de­ram três mares tão grandes, que dos bal­anços que a nau deu lhe ar­reben­taram os apar­el­hos e costeiras da ban­da de bom­bor­do, que não lhe ficaram mais que as três di­anteiras.

  E ven­do-​se com os apar­el­hos que­bra­dos, e sem nen­hu­ma enxár­cia no mas­tro daque­la ban­da, lançaram a mão a uns vi­radores para faz­erem uns brandais. E es­tando com es­ta obra na mão an­da­va o mar muito grosso, e lh­es pare­ceu que por en­tão era obra es­cu­sa­da, e que era mel­hor con­sel­ho cortarem o mas­tro pe­lo muito que a nau tra­bal­ha­va; o ven­to e o mar era taman­ho que lhe não con­sen­tia faz­er obra nen­hu­ma, nem havia homem que se pudesse ter em pé.

  Es­tando com os macha­dos nas mãos começan­do já a cor­tar vem supi­ta­mente ar­reben­tar o mas­tro grande por cima das polés das coroas, co­mo se o cor­taram de um golpe, e pela ban­da do es­ti­bor­do o lançou o ven­to ao mar com a gávea, e enxár­cia, co­mo que fo­ra uma cousa muito leve; e en­tão lhe cor­taram os apar­el­hos, e enxár­cia da out­ra ban­da, e to­do jun­to se foi ao mar. E ven­do-​se sem mas­tro, nem ver­ga fiz­er­am no pé do mas­tro grande que lhe fi­cou, um mas­taréu de um pedaço de en­te­na bem pre­ga­da, e com as mel­hores ar­reataduras que pud­er­am: e nele guarnece­ram uma ver­ga para a vela da guia, e da out­ra en­te­na fiz­er­am uma ver­ga para pa­ga-​fi­go, e com al­guns pedaços de ve­las vel­has tornaram a guarnecer es­ta ver­ga grande; e out­ro tan­to fiz­er­am para o mas­tro de proa; e fi­cou is­to tão re­men­da­do e fra­co, que bas­ta­va qual­quer ven­to para lhos tornar a levar.

  E co­mo tiver­am tu­do guarneci­do de­ram às ve­las com o ven­to su-​suéste. E co­mo o leme vin­ha já com três fer­ros menos, que er­am os prin­ci­pais, não lhe quis a nau gov­ernar, senão com muito tra­bal­ho, e já en­tão as es­co­tas lhe servi­am de leme. E in­do as­sim, foi o ven­to crescen­do, e a nau aguçou de ló, e pôs-​se to­da à cor­da, sem quer­er dar pe­lo leme, nem es­co­tas. E des­ta vez lhe tornou a levar o ven­to a vela grande, e a que lh­es servia de guia; e ven­do-​se out­ra vez de­sa­par­el­ha­dos de ve­las, acud­iram à v