ti­men­to por seu res­gate de pre­gos. E ali es­tiver­am cin­co dias, pare­cen­do-​lh­es que pode­ri­am es­tar até vir navio da Ín­dia, e as­sim lho diziam os ne­gros. En­tão pediu Manuel de Sousa uma casa ao rei cafre para se agasal­har com sua mul­her e fil­hos. Re­spon­deu-​lhe o cafre que lha dari­am; mas que a sua gente não po­dia es­tar ali jun­ta, porque se não pode­ri­am man­ter por haver fal­ta de man­ti­men­tos na ter­ra: que fi­cas­se ele com sua mul­her e fil­hos, com al­gu­mas pes­soas quais ele quisesse, e a out­ra gente se repar­tisse pe­los lu­gares; e que ele lhe man­daria dar man­ti­men­tos, e casas até vir al­gum navio. Is­to era a ruin­dade do rei, se­gun­do parece, pe­lo que ao de­spois lhe fez; por onde es­tá clara a razão que disse, que os cafres têm grande me­do de es­pin­gar­das; porque não ten­do ali os por­tugue­ses mais que cin­co es­pin­gar­das, e até cen­to e vinte home­ns se não atreveu o cafre a pele­jar com eles; e a fim de os roubar os apartou uns dos out­ros para muitas partes, co­mo home­ns que es­tavam tão chega­dos à morte de fome; e não saben­do quan­to mel­hor fo­ra não se apartarem, se en­tre­garam à for­tu­na, e fiz­er­am a von­tade àquele rei, que trata­va sua perdição, e nun­ca quis­er­am tomar o con­sel­ho do reiz­in­ho, que lh­es fala­va ver­dade, e lh­es fez o bem que pôde. E por aqui verão os home­ns, co­mo nun­ca hão-​de diz­er, nem faz­er cousa em que cui­dem que eles são os que ac­er­tam ou po­dem, senão pôr tu­do nas mãos de Deus Nos­so Sen­hor.

  De­spois que o rei cafre teve as­sen­ta­do com Manuel de Sousa, que os por­tugue­ses se di­vidis­sem por di­ver­sas aldeias, e lu­gares para se poderem man­ter, lhe disse tam­bém que ele tin­ha ali capitães seus, que havi­am de levar a sua gente, a saber, ca­da um os que lhe en­tre­gassem para lhe darem de com­er; e is­to não po­dia ser senão com ele man­dar aos por­tugue­ses, que deix­as­sem as ar­mas, porque os cafres havi­am me­do de­les en­quan­to as vi­am, e que ele as man­daria me­ter em uma casa, para lhas dar tan­to que viesse o navio dos por­tugue­ses.

  Co­mo Manuel de Sousa já en­tão an­da­va muito doente, e fo­ra de seu per­feito juí­zo, não re­spon­deu, co­mo fiz­era es­tando em seu en­tendi­men­to; re­spon­deu, que ele falar­ia com os seus. Mas co­mo a ho­ra fos­se chega­da, em que havia de ser rouba­do, falou com eles, e lh­es disse: que nem havia de pas­sar dali, de uma ou de out­ra maneira havia de bus­car remé­dio de navio, ou out­ro qual­quer que Nos­so Sen­hor dele or­de­nasse; porque aque­le rio em que es­tavam era de Lourenço Mar­ques; e o seu pi­lo­to An­dré Vaz as­sim lho dizia: que quem quisesse pas­sar dali, que o pode­ria faz­er, se lhe bem pare­cesse, mas que ele não po­dia, por amor de sua mul­her e fil­hos, que vin­ha já mui de­bil­ita­da dos grandes tra­bal­hos, que não po­dia já an­dar, nem tin­ha es­cravos que o aju­dassem. E por­tan­to a sua de­ter­mi­nação era acabar com sua família, quan­do Deus dis­so fos­se servi­do; e que lhe pe­dia, que os que dali pas­sas­sem, e fos­sem ter com al­gu­ma em­bar­cação de por­tugue­ses, que lhe trouxessem ou man­dassem as no­vas, e os que ali quisessem ficar com ele, o pode­ri­am faz­er; e por onde ele pas­sasse pas­sari­am eles.

  E porém que para os ne­gros se fi­arem de­les e não cuidarem que er­am ladrões, que an­davam a roubar, que era necessário en­tre­garem as ar­mas, para re­me­di­ar tan­ta de­saven­tu­ra co­mo tin­ham de fome havia tan­to tem­po. E já en­tão o pare­cer de Manuel de Sousa, e dos que com ele con­sen­ti­ram, não er­am de pes­soas que es­tavam em si; porque se bem ol­harem, en­quan­to tiver­am suas ar­mas con­si­go, nun­ca os ne­gros chegaram a eles. En­tão man­dou o capitão que pusessem as ar­m