as, em que de­spois de Deus es­ta­va sua sal­vação, e con­tra a von­tade de al­guns, e muito mais con­tra a de D. Leonor, as en­tre­garam; mas não hou­ve quem o con­tradissesse senão ela, ain­da que lhe aproveitou pouco. En­tão disse: «Vós en­tre­gais as ar­mas, ago­ra me dou por per­di­da com to­da es­ta gente.» Os ne­gros tomaram as ar­mas, e as levaram a casa do rei cafre.

  Tan­to que os cafres vi­ram os por­tugue­ses sem ar­mas, co­mo já tin­ham con­cer­ta­do a traição os começaram lo­go a apartar, e roubar, e os levaram por ess­es matos, ca­da um co­mo lhe caía a sorte. E acaba­do de chegarem aos lu­gares, os levaram já de­spi­dos, sem lhe deixar so­bre si cousa al­gu­ma, e com mui­ta pan­ca­da os lançavam fo­ra das aldeias. Nes­ta com­pan­hia não ia Manuel de Sousa, que com sua mul­her e fil­hos, e com o pi­lo­to An­dré Vaz, e obra de vinte pes­soas fi­cavam com o rei, porque trazi­am muitas jóias, e ri­ca pe­draria, e din­heiro; e afir­mam que o que es­ta com­pan­hia trouxe até ali, valia mais de cem mil cruza­dos. Co­mo Manuel de Sousa com sua mul­her, e com aque­las vinte pes­soas foi aparta­do da gente, foram lo­go rouba­dos de tu­do o que trazi­am, so­mente os não de­spiu; e o rei lhe disse que se fos­se muito em­bo­ra em bus­ca de sua com­pan­hia, que lhe não que­ria faz­er mais mal, nem to­car em sua pes­soa, nem de sua mul­her. Quan­do Manuel de Sousa is­to viu, bem se lem­braria quão grande er­ro tin­ha feito em dar as ar­mas, e foi força de faz­er o que lhe man­davam, pois não era mais em sua mão.

  Os out­ros com­pan­heiros, que er­am noven­ta, em que en­tra­va Pan­taleão de Sá, e out­ros três fi­dal­gos, ain­da que to­dos foram aparta­dos uns dos out­ros, poucos e poucos, se­gun­do se ac­er­taram, de­spois que foram rouba­dos, e de­spi­dos pe­los cafres a quem foram en­tregues por o rei, se tornaram a ajun­tar; porque era per­to uns dos out­ros, e jun­tos bem mal­trata­dos, e bem tristes, fal­tan­do-​lhe as ar­mas, vesti­dos, e din­heiro para res­gate de seu man­ti­men­to, e sem o seu capitão, começaram de cam­in­har.

  E co­mo já não lev­avam figu­ra de home­ns, nem quem os gov­er­nasse, iam sem or­dem, por desvaira­dos cam­in­hos: uns por matos, e out­ros por ser­ras, se acabaram de es­pal­har, e já en­tão ca­da um não cu­ra­va mais que faz­er aqui­lo em que lhe pare­cia que po­dia sal­var a vi­da, quer en­tre cafres, quer en­tre out­ros mouros, porque já en­tão não tin­ha con­sel­ho, nem quem os ajun­tasse para is­so. E co­mo home­ns que an­davam já de to­do per­di­dos, deixarei ago­ra de falar ne­les, e tornarei a Manuel de Sousa, e a des­di­tosa de sua mul­her e fil­hos. 

  Ven­do-​se Manuel de Sousa rouba­do, e de­spe­di­do del-​rei, que fos­se bus­car sua com­pan­hia, e que já en­tão não tin­ha din­heiro, nem ar­mas, nem gente para as tomar: e da­do ca­so que já havia dias que vin­ha doente da cabeça, to­davia sen­tiu muito es­ta afronta. Pois que se pode cuidar de uma mul­her muito del­ica­da, ven­do-​se em tan­tos tra­bal­hos, e com tan­tas ne­ces­si­dades; e so­bre to­das, ver seu mari­do di­ante de si tão mal­trata­do, e que não po­dia já gov­ernar, nem ol­har por seus fil­hos? Mas co­mo mul­her de bom juí­zo, com o pare­cer dess­es home­ns, que ain­da tin­ha con­si­go, começaram a cam­in­har por ess­es matos, sem nen­hum remé­dio, nem fun­da­men­to, so­mente o de Deus. A este tem­po es­ta­va ain­da An­dré Vaz o pi­lo­to em sua com­pan­hia, e o con­tramestre, que nun­ca a deixou, e uma mul­her ou duas por­tugue­sas, e al­gu­mas es­cravas. In­do as­sim cam­in­han­do, lh­es pare­ceu bom con­sel­ho seguir os noven­ta home­ns, que avante iam rouba­dos, e havia dous dias, que cam­in­havam, seguin­do suas pisadas. E D. Leonor ia já tão fra­ca, tão trist