e, e de­scon­so­la­da, por ver seu mari­do da maneira que ia, e por se ver aparta­da da out­ra gente, e ter por im­pos­sív­el poder-​se ajun­tar com eles, que cuidar bem nis­to é cousa para que­brar os corações! In­do as­sim cam­in­han­do, tornaram out­ra vez os cafres a dar nele, e em sua mul­her, e em ess­es poucos que iam em sua com­pan­hia, e ali os de­spi­ram, sem lhe deixarem so­bre si cousa al­gu­ma. Ven­do-​se am­bos des­ta maneira com duas cri­anças muito ten­ras di­ante de si de­ram graças a Nos­so Sen­hor.

  Aqui dizem que D. Leonor se não deix­ava de­spir, e que às pun­hadas, e às bofe­tadas se de­fendia, porque era tal, que que­ria antes que a matassem os cafres, que ver-​se nua di­ante da gente, e não há dúvi­da que lo­go ali acabara sua vi­da, se não fo­ra Manuel de Sousa, que lhe ro­gou se deix­as­se de­spir, que lhe lem­bra­va que nasce­ram nus, e pois Deus daqui­lo era servi­do, que o fos­se ela. Um dos grandes tra­bal­hos que sen­tia, era verem dous meni­nos pe­quenos seus fil­hos, di­ante de si choran­do, pedin­do de com­er, sem lhe poderem valer. E ven­do-​se D. Leonor de­sp­ida, lançou-​se lo­go no chão, e co­briu-​se to­da com os seus ca­be­los, que er­am muito com­pri­dos, fazen­do uma co­va na areia, onde se me­teu até à cin­tu­ra, sem mais se er­guer dali. Manuel de Sousa foi en­tão a uma vel­ha sua aia, que lhe ficara ain­da uma man­til­ha ro­ta, e lha pediu para co­brir D. Leonor, e lha deu; mas con­tu­do nun­ca mais se quis er­guer daque­le lu­gar, onde se deixou cair, quan­do se viu nua.

  Em ver­dade, que não sei quem por is­to passe sem grande lás­ti­ma, e tris­teza. Ver uma mul­her tão no­bre, fil­ha, e mul­her de fi­dal­go tão hon­ra­do, tão mal­trata­da, e com tão pou­ca corte­sia! Os home­ns que es­tavam ain­da em sua com­pan­hia, quan­do vi­ram a Manuel de Sousa, e sua mul­her de­spi­dos, afas­taram-​se de­les um pedaço, pela ver­gonha, que hou­ver­am de ver as­sim seu capitão, e D. Leonor. En­tão disse ela a An­dré Vaz o pi­lo­to: «Bem vedes co­mo es­ta­mos, e que já não pode­mos pas­sar daqui, e que have­mos de acabar por nos­sos peca­dos: ide-​vos muito em­bo­ra, fazei por vos sal­var, e en­comendai-​nos a Deus; e se fordes à Ín­dia, e a Por­tu­gal em al­gum tem­po, dizei co­mo nos deix­as­tes a Manuel de Sousa, e a mim com meus fil­hos.»  E eles ven­do que por sua parte não po­di­am re­me­di­ar a fadi­ga de seu capitão, nem a po­breza, e mis­éria de sua mul­her e fil­hos, se foram por ess­es matos, bus­can­do remé­dio de vi­da.

  De­spois que An­dré Vaz se apartou de Manuel de Sousa e sua mul­her, fi­cou com ele Duarte Fer­nan­des con­tramestre do galeão, e al­gu­mas es­cravas, das quais se sal­varam três, que vier­am a Goa, que con­taram co­mo vi­ram mor­rer D. Leonor. E Manuel de Sousa ain­da que es­ta­va mal­trata­do do mi­olo, não lhe es­que­cia a ne­ces­si­dade que sua mul­her e fil­hos pas­savam de com­er. E sendo ain­da man­co de uma feri­da que os cafres lhe de­ram em uma per­na, as­sim mal­trata­do, se foi ao ma­to bus­car fru­tas para lhe dar de com­er; quan­do tornou, achou D. Leonor muito fra­ca, as­sim de fome, co­mo de chorar, que de­spois que os cafres a de­spi­ram, nun­ca mais dali se er­gueu, nem deixou de chorar; e achou um dos meni­nos mor­tos, e por sua mão o en­ter­rou na areia. Ao out­ro dia tornou Manuel de Sousa ao ma­to a bus­car al­gu­ma fru­ta, e quan­do tornou, achou D. Leonor fale­ci­da, e o out­ro meni­no, e so­bre ela es­tavam choran­do cin­co es­cravos com grandís­si­mos gri­tos.

  Dizem que ele não fez mais, quan­do a viu fale­ci­da, que apartar as es­cravas dali, e as­sen­tar-​se per­to dela, com o ros­to pos­to so­bre uma mão, por es­paço de meia ho­ra, sem chorar, nem diz­er cousa al­gu­ma; es­tando as­sim c