ela da proa, e en­tão se atrav­es­sou a nau, e começou de tra­bal­har: e por o leme ser po­dre um mar que lhe en­tão deu, lho que­brou pe­lo meio, e lev­ou-​lhe lo­go ametade, e to­dos os ma­chos ficaram meti­dos nas fêmeas. Por onde se deve ter grande re­ca­to nos lemes, e ve­las das naus, por causa de tan­tos tra­bal­hos, quan­tos são os que nes­ta car­reira se pas­sam.

  Quem en­ten­der bem o mar, ou to­dos os que nis­to bem cuidarem, poderão ver qual fi­caria Manuel de Sousa com sua mul­her, e aque­la gente, quan­do se visse em uma nau em Cabo de Boa Es­per­ança, sem leme, sem mas­tro, e sem ve­las, nem de que as poder faz­er; e já neste tem­po tra­bal­ha­va a nau tan­to, e fazia tan­ta água, que hou­ver­am por mel­hor remé­dio para se não irem ao fun­do a pique cortarem o mas­tro da proa que lhe fazia abrir a nau; e es­tando para o cor­tar lhe deu um mar tão grande que lho que­brou pe­los tam­boretes, e lho lançou ao mar sem eles porem mais tra­bal­ho que o que tiver­am em lhe cor­tar a enxár­cia; e ao cair do mas­tro deu um golpe muito grande no gu­rupés, que lho lançou fo­ra da car­lin­ga, e lho me­teu por den­tro da nau quase to­do; e ain­da foi al­gum remé­dio para lhe ficar al­gu­ma ár­vore; mas co­mo tu­do er­am prognós­ti­cos de maiores tra­bal­hos, nen­hu­ma diligên­cia por seus peca­dos lhe aproveita­va. Ain­da a este tem­po, não tin­ham vista da ter­ra, de­pois que ar­rib­aram do Cabo, mas se­ri­am dela quinze até vinte léguas. 

  Des­de que se vi­ram sem mas­tro, sem leme, e sem ve­las, fi­cou-​lhe a nau lança­da no bor­do da ter­ra: e ven­do-​se Manuel de Sousa, e ofi­ci­ais sem nen­hum remé­dio, de­ter­mi­naram o mel­hor que pud­er­am de faz­er um leme, e de al­gu­ma roupa que trazi­am de mer­cado­rias, faz­erem al­gum remé­dio de ve­las, com que pudessem vir a Moçam­bique. E lo­go com mui­ta diligên­cia repar­ti­ram a gente, parte na obra do leme, e parte em guarnecer al­gu­ma ár­vore, e a out­ra em faz­er al­gu­ma maneira de ve­las, e nis­to gas­tari­am dez dias. E ten­do o leme feito, quan­do o quis­er­am me­ter, lhe fi­cou es­tre­ito e cur­to, e não lhe serviu; e to­davia de­ram às ve­las que tin­ham, para ver se have­ria al­gum remé­dio de sal­vação, e foram para lançar o leme, e a nau lhe não quis gov­ernar de nen­hum mo­do, porque não tin­ham a bito­la do out­ro que o mar lhe levara, e já en­tão tin­ham vista da ter­ra. E is­to era aos oito de Jun­ho; e ven­do-​se tão per­to da cos­ta, e que o mar e o ven­to os ia levan­do para a ter­ra, e que não tin­ham out­ro remé­dio senão ir varar, e por se não irem ao fun­do, se en­comen­daram a Deus, e já en­tão ia a nau aber­ta, que por mi­la­gre de Deus se sus­ten­ta­va so­bre o mar.

  Ven­do-​se Manuel de Sousa tão per­to da ter­ra, e sem nen­hum remé­dio, to­mou o pare­cer de seus ofi­ci­ais, e to­dos dis­ser­am, que para remé­dio de sal­varem suas vi­das do mar, era bom con­sel­ho deixarem-​se ir as­sim até serem em dez braças, e co­mo achas­sem o di­to fun­do sur­gis­sem para lançarem o ba­tel fo­ra para sua de­sem­bar­cação; e lançaram lo­go uma manchua com al­guns home­ns que fos­sem vi­giar a pra­ia, onde da­va mel­hor jazi­go para poderem de­sem­bar­car, com acor­do, que tan­to que sur­gis­sem no ba­tel, e na manchua, de­pois da gente ser de­sem­bar­ca­da, tirarem o man­ti­men­to, e ar­mas que pudessem, que a mais fazen­da que do galeão se po­dia sal­var, era para mais perdição sua, por causa dos cafres que os havi­am de roubar. E sendo as­sim com este con­sel­ho, foram ar­riban­do ao som do mar e ven­to, alargan­do de uma ban­da, e caçan­do da out­ra; já o leme não gov­er­na­va com mais de quinze pal­mos de água de­baixo da cober­ta. E in­do já a nau per­to de ter­ra, lançaram o pru­mo, e acharam ain