­da muito fun­do, e deixaram-​se ir: e dali a um grande es­paço, tornou a manchua à nau, e disse que per­to dali havia uma pra­ia onde pode­ri­am de­sem­bar­car, se a pudessem tomar; e que tu­do o mais era rocha tal­ha­da, e grande pene­dia, onde não havia maneira de sal­vação.

  Ver­dadeira­mente que cuidarem os home­ns bem nis­to, faz grande es­pan­to! Vem com este galeão varar em ter­ra de cafres, haven­do-​o por mel­hor remé­dio para suas vi­das, sendo este tão perigoso: e por aqui verão para quan­tos tra­bal­hos es­tavam guarda­dos Manuel de Sousa, sua mul­her, e fil­hos. Ten­do já reca­do da manchua, tra­bal­haram por ir con­tra aque­la parte, onde lhe de­mor­ava a pra­ia, até chegarem ao lu­gar, que a manchu a lhe tin­ha di­to, e já en­tão er­am sete braças, onde largaram uma ân­co­ra, e após is­so com mui­ta diligên­cia guarnece­ram apar­el­hos, com que lançaram fo­ra o ba­tel.

  A primeira cousa que fiz­er­am, co­mo tiver­am ba­tel fo­ra, foi por­tar out­ra ân­co­ra à ter­ra, e já o ven­to era mais bo­nança, e o galeão es­ta­va da ter­ra dois tiros de besta. E ven­do Manuel de Sousa co­mo o galeão se lhe ia ao fun­do sem nen­hum remé­dio, chamou ao mestre, e pi­lo­to, e disse-​lh­es, que a primeira cousa que fizessem fos­se pô-​lo em ter­ra com sua mul­her e fil­hos, com vinte home­ns, que es­tivessem em sua guar­da, e após is­so tirasse as ar­mas, e man­ti­men­tos, e pólvo­ra, e al­gu­ma roupa de Cam­bra­ia, para ver se havia na ter­ra al­gu­ma maneira de res­gate de man­ti­men­tos. E is­to com fun­da­men­to de faz­er forte naque­le lu­gar com tranque iras de pi­pas, e faz­erem ali al­gum car­avelão da madeira da nau, em que pudessem man­dar reca­do a So­fala. Mas co­mo já es­ta­va de cima, que acabasse este capitão com sua mul­her, e fil­hos, e to­da sua com­pan­hia, nen­hum remé­dio se po­dia cuidar, a que a for­tu­na não fos­se con­trária; que ten­do este pen­sa­men­to de ali se faz­er forte, lhe tornou o ven­to a ven­tar com tan­to ím­peto, e o mar cresceu tan­to, que deu com o galeão à cos­ta, por onde não pud­er­am faz­er na­da do que cuidaram. A este tem­po Manuel de Sousa, sua mul­her, e fil­hos, e obra de trin­ta pes­soas em ter­ra, e to­da a mais gente es­ta­va no galeão. Diz­er o peri­go que tiver­am na de­sem­bar­cação o capitão, e sua mul­her com es­tas trin­ta pes­soas, fo­ra es­cu­sa­do; mas por con­tar história ver­dadeira, e las­ti­mosa, di­rei, que de três vezes que a manchua foi à ter­ra se perdeu, donde mor­reram al­guns home­ns, dos quais, um era o fil­ho de Ben­to Ro­drigues: e até en­tão o ba­tel não tin­ha ido à ter­ra, que não ousavam de o man­dar, porque o mar an­da­va mui bra­vo, e por a manchu a ser mais leve, es­capou aque­las duas vezes primeiras.

  Ven­do o mestre, e pi­lo­to, com a mais gente que ain­da es­ta­va na nau, que o galeão ia so­bre a amar­ra da ter­ra, e en­ten­derem que a amar­ra de mar se lhe cor­tara, porque o fun­do era su­jo, e havia dois dias que es­tavam sur­tos, e em aman­hecen­do ao ter­ceiro dia, que vi­ram que o galeão fi­ca­va só so­bre a amar­ra da ter­ra, e o ven­to começa­va a ven­tar, disse o pi­lo­to à out­ra gente, a tem­po que já a nau to­ca­va: «Ir­mãos, antes que a nau abra, e se nos vá ao fun­do, quem se quis­er em­bar­car comi­go naque­le ba­tel o poderá faz­er», e se foi em­bar­car, e fez em­bar­car o mestre, que era homem vel­ho, e a quem fale­cia já o es­píri­to por sua idade; e com grande tra­bal­ho, por ser o ven­to forte, se em­bar­caram no di­to ba­tel obra de quarenta pes­soas, e o mar an­da­va tão grosso em ter­ra, que deitou o ba­tel em ter­ra feito em pedaços na pra­ia. E quis Nos­so Sen­hor, que des­ta bate­la­da não mor­reu ninguém, que foi mi­la­gre, porque antes de vir a ter­ra o soço