­brou o mar. 

  O capitão, que o dia antes se de­sem­bar­cara, an­da­va na pra­ia es­forçan­do os home­ns, e dan­do a mão aos que po­dia, os lev­ava ao fo­go que tin­ha feito, porque o frio era grande. Na nau ficaram ain­da o mel­hor de quin­hen­tas pes­soas, a saber: duzen­tos por­tugue­ses, e os mais es­cravos; em que en­tra­va Duarte Fer­nan­des con­tramestre do galeão, e o guardião; e es­tando ain­da as­sim a nau, que já da­va muitas pan­cadas, lh­es pare­ceu bom con­sel­ho alargarem a amar­ra por mão, por que fos­se a nau bem à ter­ra, e não a quis­er­am cor­tar por que a ressaca os não tor­nasse para o pego; e co­mo a nau se as­sen­tou, em pouco es­paço se par­tiu pe­lo meio, a saber do mas­tro avante um pedaço, e out­ro do mas­tro à ré, e daí a obra de uma ho­ra aque­les dous pedaços se fiz­er­am em qua­tro, e co­mo as aber­turas foram ar­rom­badas, as fazen­das, e caixas vier­am aci­ma, e a gente que es­ta­va na nau, se lançou so­bre a caixaria, e madeira à ter­ra. Mor­reram em se lançan­do, mais de quarenta por­tugue­ses, e se­ten­ta es­cravos; a mais gente veio à ter­ra por cima do mar, e al­gu­ma por baixo, co­mo o Nos­so Sen­hor aprou­ve; e mui­ta dela feri­da dos pre­gos, e madeira. Dali a qua­tro ho­ras era o galeão des­feito, sem dele apare­cer pedaço taman­ho co­mo uma braça, e tu­do o mar deitou em ter­ra, com grande tem­pes­tade.

  E a fazen­da que no galeão ia, as­sim del-​rei, co­mo de partes, dizem que valia um con­to de ouro: porque des­de que a Ín­dia é de­scober­ta, até en­tão não par­tiu nau de lã tão ri­ca. E por se des­faz­er a nau em tan­tas mi­gal­has, não pôde o capitão Manuel de Sousa faz­er a em­bar­cação que tin­ha de­ter­mi­na­do, que não fi­cou ba­tel, nem cousa so­bre que pudesse ar­mar o car­avelão, nem de que o faz­er, por onde lhe foi necessário tomar out­ro con­sel­ho. 

  Ven­do o capitão, e sua com­pan­hia, que não tin­ham remé­dio de em­bar­cação, com con­sel­ho dos seus ofi­ci­ais, e dos home­ns fi­dal­gos, que em sua com­pan­hia lev­ava, que era Pan­taleão de Sá, Tristão de Sousa, Amador de Sousa, e Dio­go Mendes Doura­do de Setúbal. As­sen­taram que de­vi­am de es­tar naque­la pra­ia, onde saíram do galeão, al­guns dias, pois ali tin­ham água, até lhe con­va­lescerem os doentes. En­tão fiz­er­am suas tran­queiras de al­gu­mas ar­cas, e pi­pas, e es­tiver­am ali doze dias, e em to­dos eles lhe não veio falar nen­hum ne­gro da ter­ra; so­mente aos três primeiros apare­ce­ram nove cafres em um out­eiro, e ali es­tari­am duas ho­ras, sem terem nen­hu­ma fala connosco; e co­mo es­pan­ta­dos se tornaram a ir. E dali a dous dias lhe pare­ceu bem man­darem  um homem, e um cafre do mes­mo galeão, para ver se achavam al­guns ne­gros, que com eles quisessem falar para res­gatarem al­gum man­ti­men­to. E estes an­daram lá dous dias sem acharem pes­soa vi­va, senão al­gu­mas casas de pal­ha de­spovoadas, por onde en­ten­der­am, que os ne­gros fu­gi­ram com me­do, e en­tão se tornaram ao ar­ra­ial, e em al­gu­mas das casas acharam frechas meti­das, que dizem que é o seu sinal de guer­ra.

  Dali a três dias, es­tando naque­le lu­gar, onde es­caparam do galeão, lhe apare­ce­ram em um out­eiro sete, ou oito cafres com uma va­ca pre­sa, e por acenos os fiz­er­am os cristãos de­scer abaixo, e o capitão com qua­tro home­ns foi falar com eles, e de­pois de os ter se­guros, lhe dis­ser­am os ne­gros por acenos, que que­ri­am fer­ro. En­tão o capitão man­dou pôr meia dúzia de pre­gos, e lhos amostrou, e eles fol­gar­am de os ver, e se chegaram en­tão mais para os nos­sos, e começaram a tratar o preço da va­ca, e es­tando já con­cer­ta­dos, apare­ce­ram cin­co cafres em out­ro out­eiro, e começaram a bradar por sua lín­gua, que não dessem a va­ca a tro­co d