e pre­gos. En­tão se foram estes cafres, levan­do con­si­go a va­ca, sem falar palavra. E o capitão lhe não quis tomar a va­ca, ten­do dela mui grande ne­ces­si­dade para sua mul­her, e fil­hos.

  As­sim es­teve sem­pre com muito cuida­do, e vi­gia, lev­an­tan­do-​se ca­da noite três e qua­tro vezes a ron­dar os quar­tos, o que era grande tra­bal­ho para ele; e as­sim es­tiver­am doze dias até que a gente lhe con­va­lesceu; no cabo dos quais ven­do que já es­tavam to­dos para cam­in­har, os chamou a con­sel­ho, so­bre o que de­vi­am faz­er, e antes de prati­carem o ca­so, lh­es fez uma fala des­ta maneira. 

  Ami­gos e sen­hores; bem vedes o es­ta­do a que por nos­sos peca­dos so­mos chega­dos, e eu creio ver­dadeira­mente que os meus só bas­tavam para por eles ser­mos pos­tos em taman­has ne­ces­si­dades, co­mo vedes que temos; mas é Nos­so Sen­hor tão piedoso, que ain­da nos faz taman­ha mer­cê, que nos não fôsse­mos ao fun­do naque­la nau, trazen­do tan­ta quan­ti­dade de água de­baixo das cober­tas; praz­erá a ele, que pois foi servi­do de nos levar a ter­ra de cristãos, e os que nes­ta de­man­da acabaram com tan­tos tra­bal­hos, haverá por bem que se­jam para sal­vação de suas al­mas. Estes dias, que aqui es­tive­mos, bem vedes, sen­hores, que foram necessários para nos con­va­lescerem os doentes que trazíamos; já ago­ra, Nos­so Sen­hor se­ja lou­va­do, es­tão para cam­in­har; e por­tan­to vos ajun­tei aqui para as­sen­tar­mos que cam­in­ho have­mos de tomar para remé­dio de nos­sa sal­vação, que a de­ter­mi­nação, que trazíamos de faz­er al­gu­ma em­bar­cação, se nos atal­hou co­mo vistes, por não po­der­mos sal­var da nau cousa nen­hu­ma, para a po­der­mos faz­er. E pois sen­hores e ir­mãos, vos vai a vi­da, co­mo a mim, não será razão faz­er, nem de­ter­mi­nar cousa sem con­sel­ho de to­dos. Uma mer­cê vos quero pedir, a qual é que me não de­sam­pareis, nem deix­eis, da­do ca­so que eu não pos­so an­dar tan­to, co­mo os que mais an­darem, por causa de min­ha mul­her, e fil­hos. E as­sim to­dos jun­tos quer­erá Nos­so Sen­hor pela sua mis­er­icór­dia aju­dar-​nos.

  De­pois de fei­ta es­ta fala, e prati­carem to­dos no cam­in­ho que havi­am de faz­er, vis­to não haver out­ro remé­dio, as­sen­taram que de­vi­am de cam­in­har com a mel­hor or­dem que pudessem ao lon­go dessas pra­ias cam­in­ho do rio, que de­sco­briu Lourenço Mar­ques, e lhe prom­eter­am de nun­ca o de­sam­parar: e lo­go o puser­am por obra; ao qual rio have­ria cen­to e oiten­ta léguas por cos­ta, mas eles an­daram mais de trezen­tas pe­los muitos rodeios, que fiz­er­am em quer­erem pas­sar os rios, e bre­jos, que achavam no cam­in­ho: e de­spois tor­navam ao mar, no que gas­taram cin­co meses e meio.

  Des­ta pra­ia onde se perder­am em 31. graus aos sete de Jul­ho de cin­quen­ta e dous, começaram a cam­in­har com es­ta or­dem, que se segue: a saber Manuel de Sousa com sua mul­her e fil­hos com oiten­ta por­tugue­ses, e com es­cravos, e An­dré Vaz o pi­lo­to na sua com­pan­hia com uma ban­deira com um cru­ci­fixo er­gui­do, cam­in­ha­va na van­guar­da, e D. Leonor sua mul­her, lev­avam-​na es­cravos em um an­dor. Lo­go atrás vin­ha o mestre do galeão com a gente do mar, e com as es­cravas. Na re­ta­guar­da cam­in­ha­va Pan­taleão de Sá com o resto dos por­tugue­ses, e es­cravos, que se­ri­am até duzen­tas pes­soas, e to­das jun­tas se­ri­am quin­hen­tas; das quais er­am cen­to e oiten­ta por­tugue­ses. Des­ta maneira cam­in­haram um mês com muitos tra­bal­hos, fomes, e sedes, porque em to­do este tem­po não co­mi­am senão o ar­roz que es­capara do galeão, e al­gu­mas fru­tas do ma­to, que out­ros man­ti­men­tos da ter­ra não achavam, nem quem os vendesse; por onde pas­saram