 tão grande es­ter­il­idade, qual se não pode cr­er, nem es­cr­ev­er.

  Em to­do este mês pode­ri­am ter cam­in­hado cem léguas: e pe­los grandes rodeios, que fazi­am no pas­sar dos rios, não teri­am an­da­do trin­ta léguas por cos­ta: e já en­tão tin­ham per­di­das dez, ou doze pes­soas; só um fil­ho bas­tar­do de Manuel de Sousa de dez ou onze anos, que vin­do já muito fra­co de fome, ele, e um es­cra­vo, que o trazia às costas, se deixaram ficar atrás. Quan­do Manuel de Sousa per­gun­tou por ele, que lhe dis­ser­am que fi­ca­va atrás obra de meia légua, es­teve para perder o sizo, e por lhe pare­cer que vin­ha na tra­seira com seu tio Pan­taleão de Sá, co­mo al­gu­mas vezes acon­te­cia, o perdeu as­sim; e lo­go prom­eteu quin­hen­tos cruza­dos a dous home­ns, que tor­nassem em bus­ca dele, mas não hou­ve quem os quisesse aceitar, por ser já per­to da noite, e por causa dos ti­gres, e leões; porque co­mo fi­ca­va o homem atrás, o co­mi­am; por onde lhe foi força­do não deixar o cam­in­ho que lev­ava, e deixar as­sim o fil­ho, onde lhe ficaram os ol­hos. E aqui se poderá ver quan­tos tra­bal­hos foram os deste fi­dal­go antes de sua morte. Era tam­bém per­di­do An­tónio de Sam­paio so­brin­ho de Lopo Vaz de Sam­paio, gov­er­nador que foi da Ín­dia: e cin­co, ou seis home­ns por­tugue­ses, e al­guns es­cravos de pu­ra fome, e tra­bal­ho do cam­in­ho.

  Neste tem­po tin­ham já pele­ja­do al­gu­mas vezes, mas sem­pre os cafres lev­avam a pi­or, e em uma briga lhe mataram Dio­go Mendes Doura­do, que até sua morte tin­ha pele­ja­do mui bem co­mo va­lente cav­aleiro. Era tan­to o tra­bal­ho, as­sim da vi­gia, co­mo da fome, e cam­in­ho, que ca­da dia des­fale­cia mais a gente, e não havia dia que não fi­cas­se uma ou duas pes­soas por es­sas pra­ias, e pe­los matos, por não poderem cam­in­har; e lo­go er­am co­mi­dos dos ti­gres, e ser­pentes, por haver na ter­ra grande quan­ti­dade. E cer­to, que ver ficar estes home­ns, que ca­da dia lhe fi­cavam vivos por ess­es de­ser­tos, era cousa de grande dor e sen­ti­men­to para uns, e para out­ros; porque o que fi­ca­va, dizia aos out­ros que cam­in­havam de sua com­pan­hia, por­ven­tu­ra a pais, e a ir­mãos, e ami­gos, que se fos­sem muito em­bo­ra, que os en­comen­dassem ao Sen­hor Deus. Fazia is­to taman­ha má­goa ver ficar o par­ente, e o ami­go sem lhe poder valer, saben­do que dali a pouco es­paço havia de ser co­mi­do de feras al­imárias; que pois faz tan­ta má­goa a quem o ou­ve, quan­ta mais fará a quem o viu e pas­sou. 

  Com grandís­si­ma de­saven­tu­ra in­do as­sim prosseguin­do, ora se meti­am no sertão a bus­car de com­er, e a pas­sar rios, e se tor­navam ao lon­go do mar subindo ser­ras mui al­tas; ora de­scen­do out­ras de grandís­si­mo peri­go: e não bas­tavam ain­da estes tra­bal­hos, senão out­ros muitos, que os cafres lhe davam. E as­sim cam­in­haram obra de dous meses e meio, e tan­ta era a fome, e a sede que tin­ham, que os mais dos dias acon­te­ci­am cousas de grande ad­mi­ração, das quais con­tarei al­gu­mas mais notáveis.

  Acon­te­ceu muitas vezes en­tre es­ta gente vender-​se um pú­caro de água de um quar­til­ho por dez cruza­dos, e em um caldeirão que lev­ava qua­tro canadas, se fazia cem cruza­dos; e porque nis­to às vezes havia des­or­dem, o capitão man­da­va bus­car um caldeirão dela, por não haver out­ra vasil­ha maior na com­pan­hia, e da­va por is­so a quem a ia bus­car cem cruza­dos: e ele por sua mão a repar­tia, e a que toma­va para sua mul­her, e fil­hos, era a oito e dez cruza­dos o quar­til­ho; e pela mes­ma maneira repar­tia a out­ra, de mo­do que sem­pre pudesse re­me­di­ar, que com o din­heiro, que em dia se fazia naque­la água, ao out­ro hou­vesse quem a fos­se bus­car, e se pusesse a esse risco pe­lo 