in­ter­esse. E além dis­to pas­savam grandes fomes, e davam muito din­heiro por qual­quer peixe que se acha­va na pra­ia, ou por qual­quer an­imal do monte.

  Vin­do cam­in­han­do por suas jor­nadas, se­gun­do era a ter­ra que achavam, e sem­pre com os tra­bal­hos que ten­ho di­to: se­ri­am já pas­sa­dos três meses que cam­in­havam com de­ter­mi­nação de bus­car aque­le rio de Lourenço Mar­ques, que é a agua­da de Boa Paz. Havia já muitos dias que se não mantin­ham senão de fru­tas, que aca­so se achavam, e de os­sos tor­ra­dos: e acon­te­ceu muitas vezes vender-​se no ar­ra­ial uma pele de uma co­bra por quinze cruza­dos: e ain­da que fos­se se­ca a lançavam na água, e as­sim a co­mi­am.

  Quan­do cam­in­havam pelas pra­ias, mantin­ham-​se com marisco, ou peixe, que o mar lança­va fo­ra. E no cabo deste tem­po vier­am ter com um cafre, sen­hor de duas aldeias, homem vel­ho, e que lh­es pare­ceu de boa condição, e as­sim o era pe­lo agasal­ho, que nele acharam, e lh­es disse, que não pas­sas­sem dali, que es­tivessem em sua com­pan­hia, e que ele os man­te­ria o mel­hor que pudesse; porque na ver­dade aque­la ter­ra era fal­ta de man­ti­men­tos, não por ela os deixar de dar, senão porque os cafres são home­ns que não se­meiam senão muito pouco, nem comem senão do ga­do bra­vo que matam.

  As­sim que este rei cafre aper­tou muito com Manuel de Sousa, e sua gente que es­tivera com ele, dizen­do-​lhe que tin­ha guer­ra com out­ro rei, por onde eles havi­am de pas­sar, e que­ria sua aju­da: e que se pas­sas­sem avante, que soubessem cer­to que havi­am de ser rouba­dos deste rei, que era mais poderoso que ele; de maneira que pe­lo proveito, e aju­da que es­per­ava des­ta com­pan­hia, e tam­bém pela notí­cia que já tin­ha de por­tugue­ses por Lourenço Mar­ques, e An­tónio Caldeira, que ali es­tiver­am, tra­bal­ha­va quan­to po­dia, por que dali não pas­sas­sem; e estes dous home­ns lhe puser­am nome Gar­cia de Sá, por ser vel­ho, e ter muito o pare­cer com ele, e ser bom homem, que não há dúvi­da, senão que em to­das as nações há maus, e bons; e por ser tal fazia agasal­hos; e hon­ra­va aos por­tugue­ses: e tra­bal­hou quan­to pôde que não pas­sas­sem avante, dizen­do-​lhe que havi­am de ser rouba­dos daque­le rei com que ele tin­ha guer­ra. E em se de­ter­mi­nar se de­tiver­am ali seis dias. Mas co­mo parece que es­ta­va de­ter­mi­na­do acabar Manuel de Sousa nes­ta jor­na­da com a maior parte de sua com­pan­hia, não quis­er­am seguir o con­sel­ho deste reiz­in­ho, que os de­sen­gana­va. 

  Ven­do o rei, que to­davia o capitão de­ter­mi­na­va de se par­tir dali, lhe pediu que antes que se par­tisse, o quisesse aju­dar com al­guns home­ns de sua com­pan­hia con­tra um rei, que atrás lhe fi­ca­va; e pare­cen­do-​lhe a Manuel de Sousa, e aos por­tugue­ses, que se não po­di­am es­cusar de faz­er o que lhe pe­dia, as­sim pelas boas obras, e agasal­ho, que dele re­ce­ber­am, co­mo por razão de o não es­can­dalizar, que es­ta­va em seu poder, e de sua gente; pediu a Pan­taleão de Sá seu cun­hado, que quisesse ir com vinte home­ns por­tugue­ses aju­dar ao rei seu ami­go; foi Pan­taleão de Sá com os vinte home­ns, e quin­hen­tos cafres, e seus capitães, e tornaram atrás por onde eles já tin­ham pas­sa­do seis léguas, e pelei­jaram com um cafre, que an­da­va lev­an­ta­do, e tomaram-​lhe to­do o ga­do, que são os seus de­spo­jos, e troux­er­am-​no ao ar­ra­ial adonde es­ta­va Manuel de Sousa com el-​rei, e nis­to gas­taram cin­co ou seis dias.

  De­pois que Pan­taleão de Sá veio daque­la guer­ra em que foi aju­dar ao reiz­in­ho, e a gente que com ele foi, e des­can­sou do tra­bal­ho que lá tiver­am; tornou o capitão a faz­er con­sel­ho so­bre a de­ter­mi­nação de sua par­ti­da, e foi t