o fra­co, que as­sen­taram que de­vi­am de cam­in­har, e bus­car aque­le rio de Lourenço Mar­ques, e não sabi­am que es­tavam nele. E porque este rio é o da água de Boa Paz com três braços, que to­dos vêm en­trar ao mar em uma foz, e eles es­tavam no primeiro: E sem em­bar­go de verem ali uma go­ta ver­mel­ha, que era sinal de virem já ali por­tugue­ses, os ce­gou a sua for­tu­na, que não quis­er­am senão cam­in­har avante. E porque havi­am de pas­sar o rio, e não po­dia ser senão em al­ma­dias, por ser grande, quis o capitão ver se po­dia tomar sete ou oito al­ma­dias, que es­tavam fechadas com cadeias, para pas­sar nelas o rio, que el-​rei não lh­es que­ria dar, porque to­da a maneira bus­ca­va para não pas­sarem, pe­los de­se­jos que tin­ha de os ter con­si­go. E para is­so man­dou cer­tos home­ns a ver se po­di­am tomar as al­ma­dias; dous dos quais vier­am e dis­ser­am que lhe era cousa di­fi­cul­tosa para se poder faz­er. E os que se deixaram ficar já com malí­cia, hou­ver­am uma das al­ma­dias à mão, e em­bar­caram-​se nela, e foram-​se pe­lo rio abaixo, e deixaram a seu capitão. E ven­do ele que nen­hu­ma maneira havia de pas­sar o rio, senão por von­tade do rei, lhe pediu o quisesse man­dar pas­sar da out­ra ban­da nas suas al­ma­dias, e que ele pa­garia bem à gente que os lev­asse; e pe­lo con­tentar lhe deu al­gu­mas das suas ar­mas, por que o largasse, e o man­dasse pas­sar.

  En­tão o rei foi em pes­soa com ele, e es­tando os por­tugue­ses re­ceosos de al­gu­ma traição ao pas­sar do rio, lhe ro­gou o capitão Manuel de Sousa, que se tor­nasse ao lu­gar com sua gente, e que o deix­as­se pas­sar à sua von­tade com a sua, e lhe fi­cas­sem so­mente os ne­gros das al­ma­dias. E co­mo no reiz­in­ho ne­gro não havia malí­cia, mas antes os aju­da­va no que po­dia, foi cousa leve de acabar com ele que se tor­nasse para o lu­gar, e lo­go se foi, e deixou pas­sar à sua von­tade. En­tão man­dou Manuel de Sousa pas­sar trin­ta home­ns da out­ra ban­da nas al­ma­dias, com três es­pin­gar­das; e co­mo os trin­ta home­ns foram da out­ra ban­da, o capitão, sua mul­her e fil­hos pas­saram além, e após eles to­da a mais gente, e até en­tão nun­ca foram rouba­dos, e lo­go se puser­am em or­dem de cam­in­har.

  Have­ria cin­co dias que cam­in­havam para o se­gun­do rio, e teri­am an­da­do vinte léguas quan­do chegaram ao rio do meio, e ali acharam ne­gros, que os en­cam­in­haram para o mar, e is­to era já ao sol-​pos­to; e es­tando à bor­da do rio, vi­ram duas al­ma­dias grandes, e ali as­sen­taram o ar­ra­ial em uma areia onde dormi­ram aque­la noite; e este rio era sal­ga­do, e não havia nen­hu­ma água doce ao re­dor, senão uma que lhe fi­ca­va atrás. E de noite foi a sede taman­ha no ar­ra­ial, que se hou­ver­am de perder; quis Manuel de Sousa man­dar bus­car al­gu­ma água, e não hou­ve quem quisesse ir menos de cem cruza­dos ca­da caldeirão, e os man­dou bus­car, e em ca­da um dia fazia duzen­tos; e se o não fiz­era as­sim, não se pud­era valer.

  E sendo o com­er tão pouco co­mo atrás di­go, a sede era des­ta maneira; porque que­ria Nos­so Sen­hor que a água lhe servisse de man­ti­men­tos. Es­tando naque­le ar­ra­ial ao out­ro dia per­to da noite, vi­ram chegar as três al­ma­dias de ne­gros, que lhe dis­ser­am por uma ne­gra do ar­ra­ial, que começa­va já en­ten­der al­gu­ma cousa, que ali viera um navio de home­ns co­mo eles, e que já era ido. En­tão lhe man­dou diz­er Manuel de Sousa se os que­ri­am pas­sar da out­ra ban­da: e os ne­gros re­spon­der­am, que era já noite (porque cafres nen­hu­ma cousa fazem de noite) que ao out­ro dia os pas­sari­am se lhe pa­gasse. Co­mo aman­heceu vier­am os ne­gros com qua­tro al­ma­dias, e so­bre preço de uns poucos de pre­gos, começaram a pas­