sar a gente, pas­san­do primeiro o capitão al­gu­ma gente para guar­da do pas­so, e em­bar­can­do-​se em uma al­ma­dia com sua mul­her e fil­hos, para da out­ra ban­da es­per­ar o resto da sua com­pan­hia; e com ele iam as out­ras três al­ma­dias car­regadas de gente.

  Tam­bém se diz que o capitão vin­ha já naque­le tem­po mal­trata­do do mi­olo, da mui­ta vi­gia, e muito tra­bal­ho, que car­regou sem­pre nele, mais que em to­dos os out­ros. E por vir já des­ta maneira, e cuidar que lhe que­ri­am os ne­gros faz­er al­gu­ma traição, lançou mão à es­pa­da, e ar­ran­cou dela para os ne­gros, que iam re­man­do dizen­do: «Per­ros, aonde me lev­ais?» 

  Ven­do os ne­gros a es­pa­da nua, saltaram ao mar, e ali es­teve em risco de se perder. En­tão lhe disse sua mul­her, e al­guns que com eles iam, que não fizesse mal aos ne­gros, que se perde­ri­am. Em ver­dade, quem con­hecera a Manuel de Sousa, e sou­bera sua dis­crição, e bran­dura, e lhe vi­ra faz­er is­to, bem pode­ria diz­er que já não ia em seu per­feito juí­zo; porque era dis­cre­to, e bem aten­ta­do: e dali por di­ante fi­cou de maneira, que nun­ca mais gov­ernou a sua gente, co­mo até ali o tin­ha feito. E chegan­do da out­ra ban­da, se queixou muito da cabeça, e nela lhe ataram toal­has, e ali se tornaram a ajun­tar to­dos. 

  Es­tando já da out­ra ban­da para começar a cam­in­har, vi­ram um golpe de cafres, e ven­do-​os se puser­am em som de pele­jar, cuidan­do que vin­ham para os roubar; e chegan­do per­to da nos­sa gente, começaram a ter fala uns com os out­ros, per­gun­tan­do os cafres aos nos­sos, que gente era, ou que bus­ca­va? Re­spon­der­am-​lhe que er­am cristãos, que se perder­am em uma nau, e que lhe ro­gavam os guiassem para um rio grande que es­ta­va mais avante, e que se tin­ham man­ti­men­tos, que lhos trouxessem, e lhos com­prari­am. E por uma cafra, que era de So­fala, lhe dis­ser­am os ne­gros, que se que­ri­am man­ti­men­tos, que fos­sem com eles a um lu­gar onde es­ta­va o seu rei, que lhe faria muito agasal­ho. A este tem­po se­ri­am ain­da cen­to e vinte pes­soas; e já en­tão D. Leonor era uma das que cam­in­havam a pé, e sendo uma mul­her fi­dal­ga, del­ica­da, e moça, vin­ha por aque­les ásper­os cam­in­hos tão tra­bal­hosos, co­mo qual­quer ro­bus­to homem do cam­po, e muitas vezes con­sola­va as da sua com­pan­hia, e aju­da­va a traz­er seus fil­hos. Is­to foi de­pois que não hou­ve es­cravos para o an­dor em que vin­ha. Parece ver­dadeira­mente que a graça de Nos­so Sen­hor supria aqui; porque sem ela não pud­era uma mul­her tão fra­ca, e tão pouco cos­tu­ma­da a tra­bal­hos, an­dar tão com­pri­dos, e ásper­os cam­in­hos, e sem­pre com tan­tas fomes, e sedes, que já en­tão pas­savam de trezen­tas léguas as que tin­ham an­da­do, por causa dos grandes rodeios.

  Tor­nan­do à história. De­spois que o capitão, e sua com­pan­hia tiver­am en­ten­di­do, que o rei es­ta­va per­to dali, tomaram os cafres por sua guia; e com muito re­ca­to cam­in­haram com eles para o lu­gar que lhe diziam, com tan­ta fome, e sede, quan­to Deus sabe. Dali ao lu­gar onde es­ta­va o rei havia uma légua, e co­mo chegaram, lhe man­dou diz­er o cafre, que não en­trassem no lu­gar; porque é coisa que eles muito es­con­dem, mas que lhe fos­sem pôr ao pé de umas ár­vores, que lhe mostraram, e que ali lhe man­daria dar de com­er. Manuel de Sousa o fez as­sim, co­mo homem que es­ta­va em ter­ra al­heia, e que não tin­ham sabido tan­to dos cafres, co­mo ago­ra sabe­mos por es­ta perdição, e pela da nau S. Ben­to, que cem home­ns de es­pin­gar­da atrav­es­sari­am to­da a Cafraria; porque maior me­do tem de­las, que do mes­mo demónio.

  De­spois de as­sim estarem agasal­ha­dos à som­bra das ár­vores, lh­es começou a vir al­gum man