Title: Nos Mares do Fim do Mundo
Author: Bernardo Santareno
CreationDate: Thu Jul 16 12:41:00 BST 2009
ModificationDate: Tue Oct 17 21:00:00 BST 1972
Genre: 
Description: 
  Nos Mares do Fim do Mun­do – (Doze meses com os pescadores ba­cal­hoeiros por­tugue­ses, por ban­cos da Ter­ra No­va e da Gronelân­dia)

  Bernar­do Santareno

  A pub­li­cação das cróni­cas ,aqui pre­sentes,  ex­traí­das do livro Nos Mares do Fim do Mun­do, foi gen­til­mente au­tor­iza­da pe­los herdeiros de Bernar­do Santareno

  © 1997, Herdeiros de Bernar­do Santareno e Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-33-3

  Lis­boa, Dezem­bro de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  NOS MARES DO FIM DO MUN­DO

  As peias do bal­anço

  Mar bom, marz­in­ho: Um cinzen­to boni­to e bril­hante, ter­na­mente on­du­la­do. A es­ti­bor­do, lá longe, a cos­ta, pín­car­os de neve c1arís­si­mos, lu­mi­nosos e amáveis co­mo um riso. E Sol: um solz­ito semi­acor­da­do que, frioren­to, ten­ta, neste começo de Pri­mav­era, espreguiçar-​se por aqui, so­bre os ban­cos da Ter­ra No­va. Cem, mil­hares de blo­cos de ge­lo, pe­quenos uns, out­ros maiores, os­cil­am gra­ciosa­mente ao sa­bor das on­das. E so­bre um destes minús­cu­los ice­ber­gues, a bizarria in­es­per­ada de uns dez ou doze patos-​mer­gul­hões, grotescos, bu­liçosos, sim­pa­tiquís­si­mos…Pas­sam ago­ra mes­mo jun­to do David Melgueiro: ol­ham-​nos sem so­bres­salto, ale­gre­mente, sem se­quer que­brarem a in­in­ter­rup­ta cadeia das suas cabri­olas, cómi­cas e tão co­mu­nicáveis... que pare­cem hu­manas! 

  - «Que fazes tu com ess­es ti­jo­los às costas, Zé Claro?!» 

  - «São "as peias do bal­anço", sen­hor doutor…» 

  E o ra­paz, sua­do ape­sar do frio, mais ver­mel­ho pe­lo es­forço, deixou pe­sada­mente cair, so­bre o con­vés, aque­le saco enorme que o trazia ver­ga­do: 

  - «Há mais de mêa ho­ra qu'eu an­do com is­to às costas: Da máquina man­dam-​me p'r'a proa...da proa p'r'a a ré... ago­ra vou lã aci­ma, à ponte…E ninguém é ca­paz de me diz­er, à con­fi­ança, ond'é que'eu hê-​de ar­ri­mar is­to... Val­ha-​me Deus!... O sen­hor doutor sabe... é por causa dos bal­anços do navio... pra faz­er o equi­líbrio...» 

  E o Zé Claro abria para mim uns ol­hos de­li­ciosa­mente in­ocentes, dum cas­tan­ho muito leve, quase amare­los, aqui e além salpi­ca­dos por pin­tas es­curas...: Co­mo os dum bi­chi­to no­vo, um gato bra­vo lá da ser­ra.

  Tin­ha, quan­do muito, de­zoito anos e fazia a sua primeira vi­agem.

  Um pouco atar­ra­ca­do, mus­cu­loso, o moço era loiro, de carne nat­ural­mente aver­mel­ha­da, os dentes puros sem mácu­la... 

  En­tão, eu não re­sisti e deix­ei-​me rir: O ra­paz, um tan­to sur­preen­di­do e en­ver­gonhado, em­bo­ra de­scon­hecen­do a causa, riu-​se lo­go tam­bém... 

  - «Quem te man­dou faz­er este serviço, Zé Claro?» 

  - «Foi o sen­hor Primêro das máquinas... Ai, ten­ho que ir...»

  E, subita­mente sério, o Zé Claro prepar­ava-​se já para pe­gar, ain­da uma vez mais, naque­le saco mon­stru­oso: Eu tive pe­na dele... 

  - «Deixa lá is­so, ra­paz: Não vês que é brin­cadeira? An­dam a man­gar con­ti­go…» 

  Uma vez mais, abriu para mim uns ol­hos in­tri­ga­dos e con­fu­sos. De­pois, es­tron­dosa­mente, deixou cair os ti­jo­los. Es­ta­va rubro, vi­oláceo, a tremer de ira: 

  - «Rais os par­tam!» 

  E sen­tou-​se em cima do saco, ago­ra triste, quase a chorar: 

  - «An­dam a faz­er pouco de mim...» 

  Eu ten­tei acalmá-​lo: Que não, que to­dos os anos fazi­am a mes­ma graça aos «verdes», que aqui­lo era coisa para rir... 

  - «Vou-​me mas é em­bo­ra... Lo­go que pos­sa, vou-​me em­bo­r