a…Cabrões!...» 

  Re­começara a nevar. Lev­ei-​o en­tão para a proa e, abri­ga­dos, con­tin­uá­mos a con­ver­sar: O Zé Claro era das ban­das da ser­ra da Es­trela, sem­pre vivera de apas­cen­tar ovel­has e nun­ca, até ago­ra, pusera os ol­hos no mar... Mas acon­te­ceu ter uma sua ir­mã, cri­ada de servir no Por­to, casa­do com um pescador: 

  - «E vai daí botei-​me a pen­sar, a pen­sar... Eu cá nun­ca tin­ha vis­to o mar, sen­hor doutor!... Tu­do is­to são coisas que se metem na cabeça dum home, na é as­sim? A cal­quer pode acon­te­cer... Ora, ilusões! Atão, co­mo pude, ajun­tê o din­hêro da vi­age, e pron­to, lá vou eu de abal­ada até ao Por­to!... Mais me valera que...» 

  In­ter­rompeu-​se, br­us­co, e fi­cou-​se a ol­har o mar, out­ra vez en­col­hi­do, co­mo um cãoz­ito es­pan­ca­do: 

  - «Se eu soubesse... Cornos!... Faz­erem de mim o tam­bor da fes­ta... Ná, sen­hor doutor, eu cá na sou home pró mar! Nem quero. Na gos­to des­ta vi­da. Na sen­hor, dou-​me por sas­tifê­to... Tomara mas era ir-​me em­bo­ra e já... já ho­je!...»

  E calou-​se de no­vo. Ol­hei-​o bem de frente, na face: Duas lá­gri­mas cor­ri­am, grandes e puras, pela larga cara afoguea­da…Era uma ver­dadeira cri­ança! De­pois, a voz en­tre cor­ta­da, apon­tou-​me a cos­ta: 

  - «Ca­da vez que os mês ol­hos caem acolá, naque­les montes de neve... ai, sen­hor doutor!, alem­bra-​me lo­go a ser­ra da Es­trela... mai-​las min­has ovel­has…É uma dor d'al­ma! ... Nun­ca eu tivesse de lá saí­do... nun­ca!» 

  - «Acabarás por te ha­bit­uar ao mar, Zé Claro...» 

  - «Ná, na habituo. E mes­mo na quero. Quan­do eu vi o mar pela primêra vez, lá na foz do Douro... gostê. Atão sim, gostê muito: Achê-​o lin­do e mais grande, mais grande!... Pois na des­can­sê, en­quan­to na em­bar­quê: As­nêras qu'um home faz, ra­toêras qu'o Di­abo ar­ti­man­ha!...Mas ago­ra, na sen­hor, já na gos­to do mar, na pos­so com ele, gan­hê-​lhe me­do: O mar é traiçoêro, só pen­sa na morte dum home...»

  Deix­ei-​o. Anoite­cia. En­tão o Zé Claro foi bus­car uma flau­ta de cana (troux­era qua­tro, qual de­las a mais bem acaba­da, to­das feitas por ele!) e, sem­pre vi­ra­do para os montes bran­cos de «São Paulo», to­cou, to­cou...encheu o mar e o ven­to com as saudades que lhe mor­diam no peito: Ai, min­ha ri­ca ser­ra da Es­trela!

  Es­tou com o Zé Claro: ele não é homem para o mar. Não há névoa, nem brisa, nem es­puma que se lhe pegue! Ele to­do, a sua carne virgem, a verde músi­ca da sua flau­ta, a clar­idade das suas lá­gri­mas, o cheiro das suas pra­gas... tu­do is­so fala de ter­ra ne­gra, de gi­es­tas e de roche­dos, de ven­tos sec­os que nem fa­cas afi­adas, de fontes fres­cas e airosas, de bailari­cos sap­atea­dos em chão firme de to­jo e ale­crim... 

  Co­mo, homem do mar? O Zé Claro?! Nun­ca o será: Nun­ca a som­bra on­dea­da das va­gas es­cure­cerá os seus ol­hos, nun­ca as es­tran­has ár­vores do fim do mun­do darão flor em seus de­dos, nun­ca a sua al­ma será habita­da pela lua dos mar­in­heiros -aque­la ter­rív­el lua san­grenta, cor­ta­da de ne­gro pe­lo vul­to erec­to dos mas­tros...

  Antiga­mente 

  Antiga­mente... Co­mo eu gos­to de ou­vir aos mais vel­hos pescadores, as histórias – «is­to foi mes­mo as­sim, sen­hor doutor!»… - dos tem­pos bár­baros da pesca do ba­cal­hau!... Jun­ta­mo-​nos ali na pe­que­na en­fer­maria (qua­tro leitos, al­guns ar­mários e uma mar­que­sa im­pro­visa­da), eu sen­ta­do na vel­ha cadeira de coiro e eles em re­dor, na berma dos be­lich­es: Pela por­ta, en­tre as baleeiras car­regadas de man­ti­men­tos (prontas para sair, se necessário for!), uma nes­ga de mar verde es­curo e um pedaço de céu emaran­hado em cin­zas e ne­gro...

  