mente. De­pois, num im­pul­so in­con­tív­el, foi-​se a ele, ar­ras­tou-​o co­mo um boneco até ao mas­tro do cen­tro e, com uma grossa cor­da, a este o amar­rou, de­ci­di­do, sem uma que­bra na fúria. 

  - «Eh!, mul­heren­gos! Eh, homen­ze­cos de pat­aco!, ou­vide bem: o que ago­ra sucede ao Zé Cra­vo, suced­erá a out­ro qual­quer que tente des­obe­de­cer-​me... A out­ro qual­quer, vel­ho ou no­vo, verde ou maduro!» 

  E, dizen­do tal, o Ca­jeira fix­ava o ti'Rufi­no, com um ol­har odi­en­to, es­tran­ho e sin­istro. O homem, sem­pre em silên­cio, aguen­tou-​lhe por mo­men­tos a vista... De­pois, abanan­do tris­te­mente a cabeça, re­tirou-​se do grupo. 

  O capitão Ca­jeira, mais uma vez, vencera a batal­ha! Pouco a pouco, os out­ros, der­ro­ta­dos, afas­taram-​se tam­bém...

  E foi as­sim que o Rio Li­ma pescou, pela primeira vez para bar­cos por­tugue­ses, nas águas tene­brosas da Gronelân­dia. Cumpriu-​se pois a promes­sa do capitão Ca­jeira: voltou a Por­tu­gal com o porão cheio de ba­cal­hau. E com as grandes ve­las, su­jas e ras­gadas, ufanas de glória. 

  Nas tardes soal­heiras de Íl­ha­vo, é cer­to e sabido que, mais uma vez, aque­le vel­hote tru­cu­len­to, pal­rador e um tan­to trôpego já, re­unirá à sua vol­ta uma as­sem­bleia doutros, tão idosos co­mo ele, aos quais, no­va­mente, con­tará al­gu­ma das suas façan­has... que não têm con­to. Lo­cal da acção: um ban­co no jardim da vi­la.

  Pois este vel­hin­ho rabu­jen­to, que ain­da gos­ta de rir com grandes gar­gal­hadas sono­ras, só cor­tadas pela tosse brôn­quica e im­per­ti­nente... é quan­to ho­je res­ta do temi­do e glo­rioso capitão Ca­jeira!

  O lo­bi­somem 

  Porquê?! Era de de­ses­per­ar o mais pa­chor­ren­to: To­dos os navios em re­dor com o con­vés re­ple­to de peixe, e só aque­le mais não fazia que so­mar lanços nu­los com sacos meios,.. Que di­abo, até pare­cia pra­ga ou bruxe­do! No mes­mo mar, com os mes­mos pro­ces­sos de pesca, com pes­soal igual­mente ade­stra­do…O am­bi­ente es­ta­va a tornar-​se ex­plo­si­vo: em ar­co ten­so os ner­vos, a lóg­ica risca­da pe­los vidros, os ol­hos mais anti­gos do in­stin­to de no­vo à su­per­fí­cie, 

  Sim, a coisa não era nat­ural: ali pe­sa­va uma qual­quer in­fluên­cia es­tran­ha e de­monía­ca, ur­na es­trela fria e ter­rív­el, um ol­har so­bre-​hu­mano e mal­são, talvez um peca­do ocul­to e ne­fan­do atrain­do o cas­ti­go... 

  - «Ah, Zé Gri­lo, tu alem­bras-​te?...» 

  - «Que con­ver­sas são es­sas, home? Alem­brar-​me de quê?...» 

  - «Ora... lá na nos­sa ter­ra... pois, o ti'Manel Tor­to...» 

  - «Cais Manel…o lo­bi­some?!» 

  -«Pois atão!... E na m'ar­regan­hes as­sim os ol­hos, home... Nun­ca se viu? Era o primêro, 'tral­mente! Es­sa ago­ra!...» 

  - «Tu pen­sas que...» 

  - «Pen­so, Zé! pen­so, sim sen­hor! Cum mil raios, na tens ol­hos pra ver nes­sa cara? O San­to An­dré vi­rou ago­ra mes­mo oito sacos, o Bis­sa­ia vai além car­regad­in­ho, já de vol­ta pra Por­tu­gal... E a gente? ... A gente, Zé Gri­lo?! An­da, re­sponde…» 

  - «Será... um lo­bi­some? jul­gas tu que...» 

  - «É um lo­bi­some, Zé Gri­lo! As­sim eu ten­ha cer­ta a sar­vação da minh'al­ma!. ..» 

  E, des­de en­tão, os dentes ac­er­ados a bril­harem nos ol­hos som­brios, to­dos de­ram em se es­pi­ar mu­tu­amente, reser­va­dos, aten­tos, fer­ozes...

  Ora acon­te­ceu que uma noite, co­mo antes em muitas out­ras, um dos aju­dantes de máquina, ra­paz­ito ain­da, acor­dou mais uma vez so­bres­salta­do, ao ou­vir o ter­ceiro-​maquin­ista que, no be­liche de cima, sofria um dos seus es­pec­tac­ulares e rui­dosos pe­sade­los... Aqui­lo era de faz­er ar­repi­ar um homem: uiv­os de l