obo, geme­duras, pra­gas as­san­hadas!.. Este pen­sa­men­to atrav­es­sou-​o de re­pente, co­mo um relâm­pa­go: e se o lo­bi­somem... sim, se fos­se o ter­ceiro? Sen­tou-​se na ca­ma. 

  Ca­da vez mais col­ori­da e cor­poriza­da, a sus­pei­ta, co­mo um sur­to de febre, apos­sa­va-​se do moço. O out­ro, lá em cima, gri­ta­va ago­ra mais forte, mais afli­to. «É ele, é ele mes­mo!», pen­sou o aju­dante. En­tão, a tremer, re­ceoso, o ra­paz levan­tou-​se pé ante pé e foi-​se à proa: tin­ha que desaba­far, com mil di­abos!! 

  Uma ho­ra de­pois, não havia ali um só homem adorme­ci­do: as cabeças hir­su­tas dos pescadores, al­gu­mas os­ten­tan­do grandes bar­bas sel­vagens, saíam dos be­lich­es, ap­in­hadas umas so­bre as out­ras, co­mo ba­gos dum gi­gan­tesco ca­cho, que a luz frouxa do lo­cal tor­na­va sonâm­bu­lo e o bril­ho ful­gu­rante dos ol­hos perigoso: 

  - «É o ter­cêro-​maque­nista, di­go-​to eu! P'las Cin­co Cha­gas de Cristo, tu já ar­reparaste bem nele? An­da p'r 'ali con­sum­ido, mais pisa­do qu'o grão no moin­ho…É ele! O lo­bi­some é ele!» 

  To­dos se ve­sti­ram, rap­ida­mente. O ru­mor, sur­do e con­ti­do, raste­ja­va pela proa co­mo uma bicha e a to­dos larga­va fo­go: 

  - «É pre­ciso picá-​lo, ra­pazes! Um lo­bi­some só deixa de faz­er mal, de­pois de pi­ca­do…»

  Os home­ns ago­ra já não se con­tin­ham: gri­tavam, ben­zi­am-​se, en­rodil­havam-​se uns com os out­ros, medrosos e odi­en­tos... 

  - «Quem?... Quem quer lá ir picá-​lo?...En­quan­to ele dorme... Quem há-​de ser?...»

  Um silên­cio con­fu­so e apa­vo­ra­do. De­pois, su­ces­si­va­mente, to­dos os ol­hares caíram so­bre o aju­dante de máquinas: o moc­ito, a voz pre­sa na gar­gan­ta, fez com a cabeça que não, re­cuan­do as­sus­ta­do... 

  Mas os out­ros, um a um, bo­taram fala, foram dan­do as suas razões: Que tin­ha de ir ele, que não po­dia mes­mo ser out­ro, até porque ninguém con­hecia mel­hor o ca­marote do ter­ceiro... Nes­ta al­tura, o ra­paz já maldizia a ideia que tivera e quase toma­va a es­col­ha da sua po­bre pes­soa para tal façan­ha, co­mo um cas­ti­go de Deus. Mas, en­fim, não havia mais remé­dio: não po­dia es­cusar-​se, porque os out­ros... E ol­haram bem, an­siosa­mente. Um ar­repio fê-​lo es­treme­cer dos pés à cabeça: à sua vol­ta ia-​se aper­tan­do, ca­da vez mais, um cír­cu­lo de ol­hos im­placáveis, de dentes cer­ra­dos, de mãos con­traí­das... Não po­dia es­col­her. 

  Lá foi. Em silên­cio, en­golin­do a própria res­pi­ração, os ol­hos alu­ci­na­dos, en­trou no ca­marote: O ter­ceiro dormia, ago­ra cal­ma­mente. A luz que pas­sa­va pela por­ta en­tre­aber­ta, deix­ava-​o ver, pen­dente do be­liche, em braço nu: ali mes­mo, naque­le braço é que tin­ha de picar! E o moço prepar­ava uma es­pé­cie de forquil­ha de arame, para tal em­pre­sa im­pro­visa­da… «É ago­ra, tem que ser ago­ra!.. E se ele acor­da, se o re­con­hece e lo­go ali o ma­ta, ou lhe faz en­can­to mau?... «Val­ha-​me Nos­sa Sen­ho­ra!» Lem­brou-​se en­tão de que, uma vez pi­ca­do, o lo­bi­somem perde­ria to­do o seu poder. Por out­ro la­do, mal lhe to­casse, ele trataria de fu­gir e o out­ro nem se­quer o ve­ria... 

  Sus­pi­ran­do, o ter­ceiro deu uma vol­ta na ca­ma: O ra­paz, com o sus­to, tropeçou nu­ma cadeira... E que­dou-​se as­sim, en­col­hi­do, o coração a saltar-​lhe pela bo­ca: es­teve quase para gri­tar. Lá se con­teve. Ol­hou: o ter­ceiro dormia ain­da, o braço out­ra vez de fo­ra...

  Pron­to, tin­ha que ser, c'um raio! Ago­ra, ou nun­ca! Es­ten­deu a forquil­ha para medir a dis­tân­cia, ver­ifi­cou que a por­ta do ca­marote se mantin­ha aber­ta... Por se­gun­dos, fe­chou os ol­hos: «Ai,