 ra­pari­ga fi­ca­va-​me fê­ta em tor­res­mos!» 

  Nas Gafan­has da Nazaré e da En­car­nação, na d'Aquém, na do Car­mo, na Vagueira... em to­das as Gafan­has de Í1ha­vo, as mul­heres aman­ham a ter­ra, du­rante o tem­po (às vezes, dez meses por ano!) em que os home­ns pescam o ba­cal­hau nos mares dis­tantes da Ter­ra No­va, da Gronelân­cia, da cos­ta do Labrador. Elas cavam, se­meiam, ceifam e col­hem: du­ra­mente, com san­ha vir­il. E as­sim se bas­tam e aos fil­hos. Quan­do o mari­do vi­er da cam­pan­ha, en­con­trará a casa cheia co­mo um ovo; e bran­quin­ha, sem som­bra de dívi­da: En­tão, com a aju­da de Deus, ele poderá com­prar mais um pedaço de ter­ra.

  É as­sim com o Rib­au, com o Chibante... com muitos out­ros. Com o Sara­ban­do, tam­bém gafan­hão e dos sete costa­dos, não será bem as­sim: muitos fil­hos e to­dos pe­quenos ain­da. Mas já al­guém o viu triste, ao nos­so Sara­ban­do? Eu cá, nun­ca. Po­brete, mas ale­grete. 


  O Adol­fo Mal­hão é um homem al­to e moreno (verde-​ne­gro, co­mo diz o Félix), de lon­gos ca­be­los e grandes bar­bas pre­tas de aze­viche. Per­fil bíbli­co, figu­ra do tes­ta­men­to anti­go. Trin­ta e cin­co anos, uns ol­hos es­curos de ilu­mi­na­do, um sor­riso lu­nar e doce. É de Cam­in­ha: Con­tra­ban­dista, pois claro.

  - «Os guardas-​fis­cais na brin­cam, só doutor: às vezes, ati­ram mes­mo! Têm por lá fi­ca­do muitos, os mel­hores, os mais novos... Quan­do as bar­cas voltam soz­in­has, das ban­das de Es­pan­ha, rio a fo­ra, mal vai a coisa: Tomara eu no­tas de con­to, co­mo d'homes ten­ho en­con­tra­do as­sim, mor­tos e já en­toir­iça­dos, no fun­do das em­bar­cações! Tomara eu... Ná, só doutor, aqui­lo na é vi­da pra home que ten­ha a família às costas. Por is­so é qu'eu vim pró ba­cal­hau: corre a gente menos risco. Eu ten­ho uma fil­ha...»

  Pois tem; o Mal­hão tem uma fil­hi­ta já com onze anos, per­feit­in­ha de cor­po e de feições, es­per­ta, com­preen­den­do tu­do muito bem, mas... que não fala: menin­gite, com a idade de meses. 

  Acon­tece to­dos os anos: na época em que o pai cos­tu­ma voltar da vi­agem (e ela sabe muito bem qual é!), não se pas­sa um só dia sem que a meni­na mu­da, vesti­da a roupi­ta domingueira, deixe de ir es­perá-​lo à es­tação: com os ol­hos an­siosos muito aber­tos, tré­mu­las de ex­ci­tação as per­ni­tas ma­gras, a cri­ança corre de car­ru­agem para car­ru­agem... até que, num cer­to com­boio, ele en­fim chega! 

  En­tão... 

  - «Ah, só doutor, a pique­na parece um cãoz­in­ho, aos saltos, em re­dor de mim! Tão per­feit­in­ha, a'nha ri­ca fil­ha, tão lad­ina, mas... na fala. Na tem cu­ra. É um dor d'al­ma, um dor d’al­ma... Mas eu in­da gos­to mais dela as­sim, é pra ela só qu'eu ven­ho ó mar!...» 

  O Cristóvão Roba­lo Moço é nazareno. Há bo­ca­do mostrou-​me o re­tra­to, em pon­to grande, das duas fil­has: Quase mul­herez­in­has (ape­sar do Cristóvão ter só trin­ta anos!), vesti­das a rig­or (sete sa­ias, à mo­da da Nazaré), as moças os­ten­tam, no pescoço e nas orel­has, um car­rega­men­to de oiro... 

  Com duas fil­has as­sim, daqui a pouco casa­do iras, o Cristóvão não se pode de­scuidar. E a mul­her, lá em ter­ra, vai aju­dan­do, es­tá bem de ver: Vende peixe, pois en­tão! Co­mo as do Félix, do Formi­ga, do Chi­ta, dos pri­mos Mur­raças... Que há-​de faz­er a mul­her dum pescador, senão vender o pesca­do? Na Nazaré, é as­sim. 

  E, na ar­ca grande do Cristóvão, as sa­ias, as blusas mul­ti­col­ores, as ar­recadas e os cordões, os lençóis bor­da­dos, ca­da vez ocu­pam um es­paço maior... 

  - «Que es­sa mardi­ta es­tique tan­to o pernil, tan­to... que toque com os pés no fun­do do mar e com a cabeça na Lua!»

  - «Que, nem de noi