E vem à baila o ca­so daque­le capitão que encer­rou dois moços de con­vés, ado­les­centes ain­da, no frig­orí­fi­co, por os ter sur­preen­di­do a furtarem não sei que gu­lo­seimas aí guardadas: Quan­do en­fim de lá os tiraram, vin­ham quase mor­tos, os po­bres! 

  E o daque­le out­ro capitão que, quan­do os home­ns lhe apare­ci­am com um de­do doente por pa­narí­cio, os­teíte ou molés­tia con­génere (ain­da não havia médi­cos de bor­do, nem se­quer en­fer­meiros...), se lh­es di­ri­gia pa­ter­nal­mente: 

  - «Mostra lá is­so, ra­paz…põe...bo­ta aqui o de­do em cima des­ta mesa, para eu ver bem... as­sim…» 

  E pron­to! lá se ia o de­do, cor­ta­do rente sob o golpe súbito e bru­tal dum pe­sa­do cute­lo. 

  Mas o pi­or, o pi­or de quan­tos capitães têm gov­er­na­do navios ba­cal­hoeiros, mor­reu ain­da há pouco tem­po: 

  - «Era de Íl­ha­vo, sen­hor doutor. Uma peste, uma pra­ga de Deus! Aqui­lo na era home, era o próprio Di­abo!...» 

  Tan­tos e tão cruéis agravos fez, que um dia, du­rante uma das suas úl­ti­mas vi­agens, a trip­ulação re­voltou-​se. E ten­do-​o amar­ra­do de pés e mãos, prestes a baldeá-​lo, mantin­ham-​no deita­do e se­guro so­bre a amu­ra­da do navio: Hes­itavam...

  Lo­go o vel­ho capitão, num golpe de au­dá­cia: 

  - «Va­mos, ra­pazes: As­sim, não es­tou bem, doem-​me as costas. Re­solvam: bor­da fo­ra, p'r'o mar; ou en­tão, de­pres­sa, p'ra den­tro!...» 

  Sur­preen­di­dos e dom­ina­dos pela cor­agem do vel­ho, os home­ns abran­daram: e puser­am-​no den­tro. 

  Uma vez em ter­ra, nen­hum fugiu ao cas­ti­go do ter­rív­el capitão: um a um, des­graçou-​os a to­dos, in­ex­orav­el­mente. 

  - «Mor­reu há poucos anos ain­da, sen­hor doutor, lá em Íl­ha­vo: Tin­ha uma nasci­da ruim que, pal­mo a pal­mo, o foi mi­nan­do to­do…O al­ma do di­abo da­va ur­ros que se ou­vi­am lá longe, na estra­da de Aveiro! Bem feito, bem feito.» 

  Um silên­cio. Pen­sati­vo, com as asas do ter­ror a crisparem-​lhe o flu­ido melancóli­co, o mais vel­ho, o tio Zé da Avó, jun­tou: 

  - «Era um home mau, um dana­do, sen­hor doutor! En­tre as mul­heres, tin­ha fama de lo­bi­some... E eu já na di­go na­da! Lem­brar-​me a mim... ol­he que is­to é tão ver­dade, sen­hor doutor, co­mo eu chamar-​me Zé: Vi, vi eu, com estes dois que a ter­ra, ou o mar, há-​de com­er! Du­rante três dias e três noites, antes de ele mor­rer, os cor­vos, um ban­do de dez pe­lo menos!, não lhe de­sam­para­ram a casa: nem os gri­tos, nem as pe­dras, nem os foguetes foram ca­pazes de os tres­mal­har. Sem­pre ali, cer­ra­dos, a voarem co­mo doi­dos em re­dor do pré­dio!... Aque­le tin­ha man­has com o Demónio, sen­hor doutor!...»

  O bobo

  Foi no Gran­ja, um vel­ho lu­gre de três mas­tros, ao que me dizem já de­sa­pare­ci­do.

  O Al­bi­no «al­gar­vio» era o bobo do veleiro: não havia ninguém na com­pan­ha, des­de os moços de con­vés até aos ofi­ci­ais da ponte, que não gostasse de «mol­har a sopa». Uns pux­avam-​lhe a camiso­la, out­ros tiravam-​lhe o bar­rete e to­dos o fe­ri­am com graço­las pe­sadas, achin­cal­han­do-​o com al­cun­has e risos destem­per­ados. O Al­bi­no ia sofren­do em silên­cio e às vezes, que remé­dio!, chega­va mes­mo a em­prestar aos lábios um sor­riso do­lorosa­mente preguea­do. Mas no in­te­ri­or, lá por den­tro, era uma cha­ga vi­va, um can­cro que, sem tréguas, o vin­ha roen­do: Mal­va­dos! Se lh­es pudesse ser bom... Mas não po­dia. En­fim, uma des­graça: ele, ali no navio, era o fan­toche, o bom­bo onde to­dos mal­havam, o es­car­ra­do iro para onde, sem cer­imó­nia, os out­ros cus­pi­am! Mas tan­tas lhe fazi­am que um dia... ora, ora, um dia... na­da, sem­pre na­da! Es­ta­va soz­in­ho,