 não tin­ha ninguém por ele: co­mo um bi­cho de­sprezív­el e feio... Feio! To­dos lho chamavam. E cabeçu­do, e tor­to, e mar­reco... Feio: de tu­do, se­ria talvez o que mais o fazia sofr­er! Por duas ocasiões já, em aces­sos de rai­va, cal­cara a pés jun­tos o es­pel­hin­ho de al­gibeira. Ah, mas eles não sabi­am ain­da quem era o Al­bi­no! E daí talvez tivessem razão: em muitas ho­ras, quase sem­pre!, sen­tia-​se man­so e re­ceoso co­mo um boi ca­pa­do. Até um dia, só até um dia!... Que se acaute­lassem, pois uma vez o palonça, o po­bre di­abo, po­dia perder a cabeça e... 

  Um mar de gar­gal­hadas apa­ga­va sem­pre as suas ameaças: Co­mo os odi­ava, nes­tas al­turas! 

  E pas­sa­va as noites a re­mo­er planos de vin­gança, ar­repios de ter­ror e lá­gri­mas de aban­dono. En­tão ele, Al­bi­no, não se­ria um homem co­mo os out­ros?! Tin­ha que o provar, tin­ha que lh­es mostrar do que era ca­paz. Era um homem, ele era um homem! 

  Mas os dois pi­ores, os mais ver­du­gos, se­ri­am o co­zin­heiro Ric­oca e o seu aju­dante, o Ma­zor­ro: Gan­hara-​lh­es me­do, só de vê-​los fi­ca­va com febre! In­da on­tem o Ric­oca, à saí­da da co­zin­ha, lhe pas­sara uma rasteira de tal jeito, que ele fo­ra es­tate­lar-​se no con­vés, no pre­ciso mo­men­to em que uma vol­ta do mar gal­ga­va a amu­ra­da: Ficara to­do en­char­ca­do, da cabeça aos pés. Em re­dor, os out­ros aper­tavam o ven­tre, de tan­to rirem...

  Ná, não po­dia con­tin­uar as­sim: perdera o gos­to pela vi­da e sen­tia-​se co­mo um es­pan­talho de eira, co­mo uma vela es­far­ra­pa­da ao ven­to. Os out­ros fazi­am-​lhe tu­do quan­to que­ri­am e ele nem rea­gia, sem­pre se fi­ca­va que­do e mu­do: Ver­dade, ver­dad­in­ha, ao cabo e ao resto, não pas­sa­va dum re­les co­barde. Só de pen­sar na mul­her e no fil­ho, sen­tia a cara arder de ver­gonha e o cor­po ala­ga­do em suores frios: Ri­co chefe de família, não ha­ja dúvi­da! 

  Ah, mas aque­le Ric­oca!...A rai­va que lhe tin­ha! E o out­ro, esse Ma­zor­ro do di­abo, não era mel­hor... Pudesse ele! 

  Tin­ha que poder: ou ar­ran­ja­va cor­agem para tirar vin­gança daque­les dois, ou deita­va-​se ao mar.

  E, noite após noite, foi acu­mu­lan­do pro­jec­tos, imag­inan­do tor­turas, son­han­do com os ol­hares ad­mi­ra­tivos dos out­ros da com­pan­ha ao saberem o que, en­fim, fiz­era... Mas vin­ha a man­hã e era co­mo se o ven­to marí­ti­mo lhe apa­gasse o lume das veias: ca­da dia mais amar­fan­hado, mais triste. Uma mis­éria, uma ver­gonha I Aqui­lo tin­ha que acabar: ou ele, ou os out­ros dois! Daque­la noite não pas­saria. Mas co­mo? Soz­in­ho, ape­nas com as suas próprias forças, não po­dia: es­ta­va mais que vis­to. E, con­tra o seu cos­tume, naque­la tarde, lo­go ao jan­tar, be­beu far­ta­mente. E de­pois con­tin­uou... até sen­tir fós­foros de lume acen­derem-​se-​lhe na cabeça e on­das de sangue cor­rerem-​lhe pe­los ol­hos. Os da com­pan­ha, ad­mi­ra­dos, ri­am e davam-​lhe pal­madas nas costas. En­tão, veio o Ric­oca: 

  - «Eh, Al­bi­no! Eh, al­gar­vio!, atão o que é is­so, home? Queres afog­ar as má­goas? ... Calem-​se p'r'aí, ra­pazes: Na sabem que ele in­da na re­ce­beu car­tas da família? São coisas qu'acon­te­cem a cal­quer mor­tal: se cal­har a mul­her...» 

  E os risos chocar­reiros aper­taram-​no, co­mo um cír­cu­lo de chum­bo a fer­ver. Um pouco cam­baleante, o Al­bi­no con­seguiu er­guer-​se à al­tura do co­zin­heiro: ol­hos nos ol­hos do in­imi­go, as mãos con­traí­das nos bol­sos, os dentes ar­regan­hados co­mo os dum lobo, o «al­gar­vio», por mo­men­tos e em silên­cio, bafe­jou com o seu hál­ito azul es­pes­so a cara sur­preen­di­da do Ric­oca; de­pois, de súbito, soltou uma gar­gal­ha­da im