­pres­sio­nante, estri­dente e sacu­di­da co­mo um soluço e, sem palavra, afas­tou-​se pre­cip­itada­mente dali. Des­ta vez os pescadores não chi­ca­naram: antes ficaram cal­ados, in­qui­etos, num va­go pressen­ti­men­to de peri­go. 

  E real­mente foi nes­sa mes­ma noite (quan­tos, pas­sa­dos já mais de quinze anos, ain­da a recor­dam an­gus­ti­ados!) que o Al­bi­no, mais con­heci­do no mar pe­lo «al­gar­vio», es­faque­ou bar­ba­mente, en­quan­to dormi­am nos be­lich­es, o co­zin­heiro Ric­oca e o seu aju­dante Ma­zor­ro: Cego de fúria, bêba­do de vin­ho e de sangue, deu fa­cadas à toa, no peito, no pescoço... por onde achou carne pen­etráv­el! 

  Quan­do, en­fim, con­seguiram ar­ran­car-​lhe a lâmi­na das mãos, o Al­bi­no mostra­va a face tin­ta de ver­mel­ho e, em uiv­os lamen­tosos, choran­do e rindo con­vul­si­va­mente, repetia baix­in­ho: 

  - «Ai, a min­ha mul­her... ai, o mê fil­hin­ho... es­tão des­graça­dos, es­tão des­graça­dos!...» 

  E o «al­gar­vio» foi lo­go amar­ra­do ao mas­tro do meio, com guar­da per­ma­nente.

  To­da a noite on­deou, em vol­ta do as­sas­si­no, uma va­ga crepi­tante de ar­chotes. O vi­gia re­ce­bera or­dem para dis­parar, con­tra quem quer que to­casse no pre­so: Só por is­so, o Al­bi­no não foi es­tran­gu­la­do naque­le anel de lume, movediço e fer­oz. 

  Quan­do a madru­ga­da veio, o Al­bi­no, es­far­ra­pa­do, su­jo de sangue, es­ta­va roxo de frio e de ter­ror! A ca­da ameaça, a ca­da im­propério, a ca­da es­car­ro que lhe lançavam os da com­pan­ha, o homem só gemia: 

  - «Ai, o mê fil­hin­ho... ai, o mê fil­hin­ho!...» 

  Mais não dizia. 

  E, nem a neve que in­ces­san­te­mente caía, nem as on­das do mar que mais du­ma vez o co­bri­ram, pud­er­am limpá-​lo daque­le sangue. 

  De­pois levaram-​no para o Gil Eannes. 

  Aí, mais com­preen­sivos, deix­avam-​no an­dar à sol­ta pe­lo navio. Mas ele nun­ca mais quis falar. E mal co­mia. De noite, ou­vi­am-​no chorar. O co­man­dante, con­doí­do, ten­ta­va an­imá-​lo: o Al­bi­no sor­ria tris­te­mente, abana­va a cabeça e, sem palavra, pun­ha os ol­hos no chão. As­sim sem­pre. 

  Foi ain­da com este mes­mo sor­riso triste, sem ódio nem fúria, que, naque­la man­hã de pro­cela, o Al­bi­no gal­gou a amu­ra­da do Gil Eannes para se lançar ao mar re­volto. Hou­ve quem o tivesse vis­to, neste pre­ciso mo­men­to: e to­dos afir­mam que ele cumpriu o ac­to ser­ena­mente, sem a cos­tumeira pre­cip­itação de­ses­per­ada, sem a mín­ima at­itude rit­ual, na­da dis­so...sim­ples, nat­ural­mente, com o tal sor­riso triste e in­fan­til a chorar-​lhe nos lábios. 

  Lá fi­cou. Não foi pos­sív­el salvá-​lo.

  O ci­clone 

  Aqui­lo levan­tou-​se de re­pente e durou uma noite in­teira. O In­fante de Sagres ati­ra­do ora aci­ma, ora abaixo, pe­los de­dos de­sco­mu­nais do mar, lam­bido fer­oz­mente pe­los ca­be­los zumbidores do ven­to, era uma coisi­ta, a fu­gir en­tre os ur­ros da deusa Fúria! 

  Foi em 1949, na Ter­ra No­va, no mês dos ci­clones Setem­bro. 

  E ninguém ain­da pôde es­que­cer. 

  Per­to, enre­de­moin­hados na mes­ma le­va pa­vorosa, o Cruz de Mal­ta (foi ao fun­do em Agos­to de 1958), o Lavrador, o Paços de Brandão (que se abriu nestes mares, em 1951) e o veleiro Ana Maria... 

  En­tre os lu­gres, pela tele­fo­nia, o ter­ror es­cor­ria nas vozes afli­tas dos capitães: ci­clone as­sim, tem­pes­tade tão bru­ta, não havia memória! 

  Até o co­man­dante João Cam­pos, do In­fante de Sagres, con­heci­do pe­lo seu feitio an­imoso e fol­gazão, cor­ria ago­ra febril­mente do desân­imo para o de­ses­pero: Tu­do per­di­do! Tu­do per­di­do! 

  A va­ga en­tra­va pela casa da máquina, com uma vi­olên­c