ia in­con­tív­el, livre! co­mo no con­vés. Im­pos­síveis as co­mu­ni­cações en­tre a proa e a ré: Nes­ta úl­ti­ma, não havia água potáv­el. No ran­cho, os pescadores, in­ibidos pe­lo me­do para a acção, es­con­di­am-​se acos­sa­dos na fé: com as ve­las que, do­lorosa­mente, acen­di­am, iam ga­stan­do as úl­ti­mas es­per­anças... 

  O In­fante de Sagres lu­ta­va por atin­gir a cos­ta e refu­giar-​se em St. John's: Mas co­mo?! Com um ven­to as­sim, o lu­gre se­ria nat­ural­mente ar­remes­sa­do de en­con­tro às rochas e, é claro, des­feito num ai!: 

  - «Je­sus, Je­sus! Ah, Sen­ho­ra dos Afli­tos!» 

  Quan­do o Fer­nan­do de Íl­ha­vo se ar­riscou no con­vés, a ten­tar a trav­es­sia, um bote, er­gui­do em pe­so pela força do ven­to e lo­go ati­ra­do pela bor­da fo­ra, atingiu-​o mes­mo na cara, ras­gan­do-​lhe bru­tal­mente uma das faces!: Mais vivos os gri­tos e as rezas pun­gentes, à proa. 

  O con­tramestre Domin­gos, um homen­zarrão bati­do por mais de trin­ta anos destes mares, a cer­ta al­tura, não teve mão em si: era vê-​lo, a chorar, nu­ma con­vul­são de amor e de me­do, agar­ra­do ao fil­ho, o An­tónio, que vin­ha pela primeira vez ao ba­cal­hau, de moço... Po­bre ra­paz­ito!: ele, ele, seu pai! é que era o cul­pa­do. Tão nov­in­ho, a bem diz­er uma cri­ança... E nun­ca mais acaba­va aque­le abraço frenéti­co, tran­si­do de es­pas­mos viris. Coisa as­sim!: era de ar­repi­ar. 

  Foi en­tão que o vel­ho Joaquim Ri­co, meio louco, en­trou pela casa da máquina den­tro e, pon­do-​se de joel­hos, deu em pedir, com uma in­sistên­cia alu­ci­na­da, ao mo­torista Almei­da que acabasse com ele, que o matasse!! 

  - «Ai, Sen­hor dos Mare­antes! Sen­ho­ra da Nazaré, acu­di-​nos, valei-​nos nes­ta aflição!» 

  Ape­nas o co­zin­heiro João Perqueixo (quem tal havia de diz­er?!), geral­mente anafa­do e molengão, mantin­ha e ci­men­ta­va a sua cal­ma: segui­do pe­lo aju­dante Eu­ri­co, em pleno con­vés dev­as­ta­do, es­tu­pen­do de en­er­gia, sem­pre metic­ulosa­mente sereno, o homem ia cor­tan­do, um a um, os ca­bos das ve­las es­far­ra­padas... Que va­lente, que ver­dadeiro va­lente! 

  E os choros, as promes­sas gri­tadas, as orações raste­jantes, as blas­fémias do de­ses­pero...iam fu­ran­do o ven­to com ag­ul­has de sangue: 

  - «Sen­hor dos Mare­antes! Sen­ho­ra do Mar! sal­vai-​nos! sal­vai-​nos!!» 

  Na­da: o céu, ne­gro de nu­vens, duro e cal­ado co­mo uma parede. 

  Madeiras, mas­tros, to­do o navio, ran­giam perigosa­mente: A vi­olên­cia do mar, ago­ra, era um parox­is­mo mostru­oso e des­gren­hado!

  O Tó Ri­to, um moço morenote e ale­gre co­mo uma pa­poila, ras­ga­do o juí­zo, de­satou a cor­rer pe­lo con­vés, diteito à bor­da: se lhe não deitam lo­go a mão, ati­ra­va-​se ao mar! E uiv­ava, co­mo um cão feri­do.

  A baía de St. John's es­ta­va à vista: Mas quem po­dia atracar lá?! O ven­to so­pra­va ca­da vez mais ri­jo. 

  - «Deus! Deus do Céu! Sen­ho­ra das Dores! acu­di-​nos nes­ta tor­men­ta!»

  Foi en­tão que... is­to só vis­to, só quem lá es­teve: doutra maneira co­mo se há-​de acred­itar?!... foi en­tão que, de re­pente, o ven­to mu­dou de di­recção:

  - «Mi­la­gre! Mi­la­gre!! Mi­la­gre!!!»

  To­dos caíram de joel­hos: em far­ra­pos, seden­tos e es­fomea­dos, trit­ura­dos pe­lo ter­ror... 

  Com um círio ain­da ace­so, ao nív­el dos ol­hos, o ti 'João Bor­ba, en­col­hi­do num can­to, chora­va si­len­ciosa­mente: e as suas grandes lá­gri­mas mu­das cin­tilavam lâmi­nas ver­mel­has, co­mo se fos­sem de lume. 

  O João Perqueixo, ain­da com a fa­ca fer­oz­mente er­iça­da na mão, com­ple­ta­mente nu (ras­ga­da e lev­ada to­da a roupa pe­lo ven­t