o e pelas on­das!), que­da­va-​se imóv­el, an­sioso, co­mo que em ex­pec­ta­ti­va do­lorosa: nem po­dia acred­itar! 

  - «Mi­la­gre! Mi­la­gre da Virgem!!»

  Quan­do, en­fim, o In­fante de Sagres en­trou em St. John's, era es­per­ado por al­gu­mas cen­te­nas de pes­soas emo­cionadas: O lu­gre apare­cia de­scon­jun­ta­do, as ve­las es­far­ra­padas, o con­vés dras­ti­ca­mente var­ri­do de tu­do quan­to o ocu­pa­va, os home­ns ain­da lívi­dos de angús­tia, mis­eráveis…E to­dos que tal vi­am, in­con­tivel­mente, choravam. 

  Foi en­tão que o Zé Rocha, mal pos­tos os pés em chão firme, num ím­peto, se lançou de joel­hos: e, as­sim, hu­milde­mente, o coração líqui­do de gratidão, bei­jou a ter­ra ne­gra! 

  Fu­ner­al marí­ti­mo 

  Foi no San­ta Mafal­da. O homem apare­ceu mor­to de man­hã, no be­liche: Doença súbi­ta. 

  O navio es­ta­va no al­to mar, a mais de vinte e qua­tro ho­ras de nave­gação para ter­ra: Era pois in­di­ca­do preparar-​lhe um fu­ner­al marí­ti­mo. 

  As­sim, o cadáver foi en­volto em ser­apil­heiras e lig­ado com fer­ro, co­mo man­da a lei. De­pois colo­caram-​no so­bre um estra­do im­pro­visa­do no meio do con­vés. 

  Pe­sarosos e con­fu­sos, os home­ns da com­pan­ha, to­dos pre­sentes, ol­havam o ca­ma­ra­da mor­to…

  Só a liber­dade bul­hen­ta e gar­ri­da das gaiv­otas ras­ga­va, com roucos gri­tos quase fer­ozes, o silên­cio to­tal e lívi­do. 

  Na ponte, o capitão leu e fez assi­nar por ofi­ci­ais e mestres «o protesto do mar». 

  Fi­nal­mente, quem sabia ou sen­tia re­zou pela sal­vação daque­la al­ma. 

  Tin­ha começa­do a nevar: os home­ns, de cabeça de­scober­ta, mostravam já largas madeixas bran­cas. Tam­bém o ven­to so­pra­va mais forte: E o pano que em­brul­ha­va o mor­to on­du­lou, mais vi­va­mente preguea­do. 

  Muitos dos pre­sentes, aju­stan­do os abafos, con­traíram-​se ar­repi­ados. 

  E o gri­to das gaiv­otas tornou-​se im­pu­di­co, co­mo um foguete de fes­ta. 

  Era o mo­men­to: 

  - «Nes­ta ho­ra de Deus e de Sua Mãe Maria San­tís­si­ma, lançai o cadáver ao mar!» 

  Num movi­men­to ger­al de re­cuo, os home­ns aden­saram a som­bra dos ros­tos. De­pois, in­sis­ten­te­mente, os ol­hares caíram so­bre aque­les três ou qua­tro que o aca­so tin­ha colo­ca­do mais per­to do estra­do... Estes, num primeiro im­pul­so, es­ten­der­am os braços para o mor­to, es­boçan­do a flexão do tron­co... Mas de re­pente fiz­er­am-​se hir­tos e foram es­con­der-​se atrás dos out­ros. O capitão, da ponte, in­sti­ga­va-​os com o ol­har... 

  Ninguém cumpriu a or­dem. 

  Um bra­do mais vi­olen­to e au­toritário, ou uma qual­quer im­pre­cação, que­braria a solenidade da ce­na. Por is­so, o capitão, duro e pau­sa­do, repetiu: 

  - «Em cumpri­men­to da lei e se­gun­do as nor­mas deste fu­ner­al marí­ti­mo, man­do que se­ja deita­do o cadáver ao mar!» 

  To­dos se en­col­her­am mais ain­da, bison­hos e lúgubres. O gri­to das gaiv­otas, ago­ra, pare­cia um riso gutu­ral e cru­el. Is­to durou, penosa­mente, dois ou três min­utos. O capitão, rubro de cólera, mal se con­tin­ha... 

  En­tão, lá do fun­do, da proa, o Chico de Al­cân­tara avançou, por mo­men­tos ol­hou so­bran­ceiro, quase trocista, os com­pan­heiros, e de­pois, em pas­sos se­guros di­rigiu-​se para o cadáver, pren­deu-​lhe o gan­cho e, de­ci­di­do, fê-​lo de­scer para o mar. 

  Quan­do, pas­sa­dos dias, o Chico começou de in­char -os pés primeiro, de­pois as per­nas e por fim o cor­po to­do não hou­ve ninguém na com­pan­ha que não pen­sasse o mes­mo: Foi cas­ti­go! 

  O médi­co bem falou em in­su­fi­ciên­cia cardía­ca e coisas que­jan­das, mas... 

  - «Tá bom de ver