, en­tra p'los ol­hos a den­tro: um home com'o Chico, uma torre de saúde, ficar as­sim de re­pente, sem mais aque­las!... Foi cas­ti­go, foi cas­ti­go!» 

  E o Chico de Al­cân­tara começou a em­preen­der: pen­san­do bem, aque­la acção não a fiz­era ele por cari­dade para o mor­to... não sen­hor!... Foi orgul­ho, alarde de valen­tia. Mas uma coisa destas!...

  E o Chico -tão dis­traí­do até en­tão dos cam­in­hos do Céu! -deu em rezar, fez pen­itên­cia ri­ja, cumpriu promes­sas cus­tosas... Na­da. Sem­pre a pi­orar. Foi en­tão que ele re­solveu deixar a vi­da de pescador. Du­ma vez para sem­pre. 

  E as­sim fez: es­ta­bele­ceu-​se em ter­ra. 

  Pois vão lá vê-​lo ago­ra: de no­vo gor­do e abas­ta­do, que é um lou­var a Deus! 

  - «Querem maior pro­va, ra­pazes? Q mar botou-​o fo­ra, nun­ca mais o quis den­tro dele, gan­hou-​lhe rai­va!...O Chico na re­speitou o mor­to: Deitou o cadávre ao mal', co­mo quem l'aman­da um pouco de peixe po­dre…E o mal' vin­gou o mor­to. Tá bem de ver: Querem coisa mais clara?! O mal' vom­itou-​o. E se ele não se vai em­bo­ra tão de­pres­sa, mata­va-​o! Mata­va-​o, ra­pazes, ten­ham vocês a certez­in­ha…Eu con­heço o mar!» 

  E o ti’Tó Ruço, os lábios tré­mu­los, nos ol­hos um lume al­to, ol­hou em re­dor: To­dos baixaram a cabeça, co­mo quem reza. Só eu, no meio dos pescadores, ten­tei um sor­riso in­cré­du­lo... lo­go cor­ta­do pela pro­fun­da e do­lorosa gravi­dade com que os out­ros me iso­laram. E o silên­cio en­volveu-​nos a to­dos. 

  Igual, monó­tona a voz do mar?! 

  Nun­ca, co­mo neste mo­men­to, eu sen­ti que tal não é ver­dade: Antes vari­ada, ri­ca, cheia de in­cidên­cias, de músi­cas longín­quas, de carí­cias rolantes, de ocul­tas ameaças...

  Fred­erik­shaabs

  Pescamos a 63° de lat­itude norte, em frente do maior glaciar do mun­do -o Fred­erik­shaabs. Ge­los eter­nos. 

  No mar sereno, na neve que cai em silên­cio, no ar límpi­do e cal­mo, ocul­ta-​se não sei que seg­re­do bran­co e cru­el, não sei que per­di­do gesto dum deus im­passív­el e gela­do... 

  E pas­sam, lenta­mente, os grandes ice­ber­gues: Poderosos, na re­al­idade ter­ríveis, a matéria de que são feitos, grá­cil e imac­ula­da, fá-​los pare­cerem só dec­ora­tivos, mes­mo amáveis... Mentem! Er­gui­dos com a sub­stân­cia do riso, no fun­do es­con­dem os ol­hos da vi­olên­cia. 

  Um dess­es blo­cos de ge­lo parece uma grande mão de­cepa­da e lívi­da: nem se­quer lhe fal­tam as veias, em com­pli­cadas nervuras dum azul belís­si­mo... 

  Out­ro é co­mo uma más­cara fúne­bre, ado­les­cente e no­bre, em cu­jos ol­hos bran­cos o sol fez nin­ho. 

  E pas­sa ain­da um cisne hi­eráti­co e re­al vo­gan­do sereno so­bre a or­la do tem­po... 

  Diluí­dos em finís­si­ma nebli­na, es­que­ci­dos no eco (anti­go de mil anos!), os an­jos do Silên­cio im­preg­nam tu­do com a penum­bra da sua na­tureza. 

  É co­mo que um pressen­ti­men­to des­gren­hado no fun­do de nós, co­mo uma lá­gri­ma vi­va e cál­ida num ros­to de ge­lo, co­mo um traço de sangue na fronte do ven­to... 

  Se lev­ado pela brisa que, sem ru­gas nem cor, nasce nos montes des­ta cos­ta, ain­da vir­gens de pe­gadas hu­manas, eu fos­se até um dos ice­ber­gues e se por ele, pe­lo coração do seu cen­tro, pas­sasse in­cor­rup­to e níti­do, eu sin­to, sei!, que, de­pois de tal trav­es­sia, qual­quer pode­ria ler nos meus ol­hos a primeira palavra di­ta no mun­do, ou as­pi­rar no meu sor­riso o per­fume da primeira flor da Ter­ra, ou sen­tir na bênção dos meus gestos o frémi­to que fez no ar a primeira asa de pás­saro ... 

  E que to­das as raízes, as mais pro­fun­das, da min­ha som­bra, to­das as ci­ca­trizes do meu peca­do, to­da a ma­cia adi