posi­dade do meu me­do, tu­do is­to lá fi­caria no ice­ber­gue bran­co e géli­do, de tu­do is­to eu me lib­er­taria para sem­pre: en­quan­to das veias azuis do ge­lo, ne­gros e medonhos, fu­giri­am peix­es mon­stru­osos que ja­mais al­guém viu... 

  Fred­erik­shaabs: a pais­agem que Deus criou, quan­do pen­sou a hu­mana vir­tude da pureza! 

  Os fan­tas­mas da Gronelân­dia 

  - «Eh, gentes! oiçam o con­sel­ho de quem lh­es quer bem: Na vão! É morte cer­ta ra­pazes...» 

  O vel­ho que as­sim aren­ga­va, o ti'Rufi­no, es­ta­va no meio. À vol­ta, os out­ros to­dos, al­guns ain­da meio de­spi­dos. No mar, mal começa­va a luzir a madru­ga­da. Lá onde os home­ns con­spir­avam, à proa, ape­nas a luz dé­bil de duas lâm­padas. E o vel­ho, caí­do o lábio in­fe­ri­or, tré­mu­lo de in­dig­nação, mostra­va os dois in­ci­sivos, grandes e amare­los, or­na­men­tos úni­cos da mandíbu­la os­su­da... 

  - «Nun­ca nen­hum navio por­tuguês s'as­treveu a pescar no tal... co­mo di­abo se chama o mar?... Grolân­dia, na é? Porque car­ga d'água há-​de ser a gente os primêros?! Botem atenção no que lh­es diz um vel­ho: Na vão, homes! Na queiram ir ami­gos!!» 

  Os ros­tos mis­eráveis dos pescadores as­sus­ta­dos tornaram-​se mais duros, os max­ilares mais ten­sos de vi­olên­cia, os ol­hos semicer­ra­dos luzi­ram fer­ozes... E o Tó Petinga, afa­stan­do abrup­ta­mente a bas­ta madeixa loira que sem­pre lhe co­bria a tes­ta, ajun­tou com voz em­bar­ga­da: 

  - «Quem lá na põe o pé, sê eu: Livra, na será o fil­ho do mê pai! Ah ti'Re­fi­no, ol­he qu'eu ou­vi diz­er que, lá pra ess­es mares, 'té a própria água de be­ber gela nas vazil­has... Tão a ver, anh?!»

  E lo­go o Zé Cra­vo: 

  - «E o lume, Tó Petinga, o lume? Quem será ca­paz d'o atear, lá pra es­sas ban­das?!»

  En­quan­to ou­via a fala dos moços, o ti'Rufi­no, mais en­ruga­do o vel­ho ros­to, apoia­va, ace­nan­do com a cabeça: 

  - «É co­mo dizem, ra­pazes. Falaram dirê­to! Parece qu'o ge­lo é tan­to que, mais du­ma vez, lá têm fi­ca­do bar­cos pri­sionêros: nun­ca mais voltaram, nun­ca mais ninguém lh­es pôs a vista em cima!»

  - «Mor­ríamos de frio e de sede!» -gri­ta­va o Tó Petinga. 

  A man­hã ia abrindo, nas al­tas va­gas, bran­cas pé­ta­las de es­puma; o ven­to, fug­in­do ao frio, en­rodil­ha­va-​se nas nu­vens cinzen­tas. 

  À proa, o alar­ido cres­cia, rouco e sur­do co­mo um rugi­do. O Tó Petinga es­car­rou rui­dosa, vir­il­mente. O Zé Cra­vo acabou de ve­stir a roupa olea­da e, ago­ra roxo de pressá­gio, veio out­ra vez ao cen­tro: 

  - «Se fos­se só is­so... se fos­se só is­so, ti'Re­fi­no! Pe­nam por lá al­mas do out­ro mun­do, fiquem to­dos a saber... Men­ti­ra? Foi o mê avô Lava­gante quem m'o con­tou, por ter ou­vi­do diz­er... Ah, ti 'Re­fi­no, vosse­mecê sabe qu'o mê avô na é home d’in­venções... Parece qu'em cer­tos dias, de tão de­sesp'radas qu'an­dam, as almin­has 'té lev­an­tam os navios ao ar: os bar­cos fi­cam grandes, al­tos co­mo tor­res!»

  E o Zé Cra­vo, com as costas da mão, as­soou-​se es­trepi­tosa­mente. Os out­ros, ex­ci­ta­dos, gri­tavam ago­ra fran­ca­mente: Ou­via-​se à ré. O Sol nascente, apan­han­do em cheio al­guns dos home­ns, os que mais próx­imo es­tavam do con­vés, lava­va-​os num ban­ho san­gren­to, dum ver­mel­ho vítreo. En­tão, o co­man­dante do Rio Li­ma (era o nome do navio veleiro em que tais acon­tec­imen­tos se pas­savam), al­to e cor­pu­len­to, um ver­dadeiro gi­gante, vi­oláceo de fúria, de­sceu à proa: 

  - «Eh, cam­ba­da de madraços! eh, pun­hado de co­bardes! que é is­so ago­ra?! Con­spir­ais? E con­tra quem, pos­so sabê-​lo? ..  Va­mos, es­tou a ou­vir: Não dizem na­da? Que home­ns va­