lentes! Tu, Rufi­no, tu és o padre-​mestre: Pois en­tão fala. Fala, com mil raios!!» 

  E o homen­zarrão, a tremer de cólera, ba­tia com as bo­ti­far­ras nas tábuas do so­bra­do, que to­das ran­giam. Os trip­ulantes, acos­sa­dos, re­cuavam, ol­han­do-​o ran­corosos. Chamavam-​lhe o capitão Caveira, es­tropiando malefi­ca­mente o nome de Ca­jeira. O vel­ho Rufi­no, páli­do co­mo um mor­to, não arredou pé. Q co­man­dante já mal se con­tin­ha: 

  - «Fala, al­ma do di­abo, ou es­queço-​me da tua idade e racho-​te... Racho-​te, de al­to a baixo!» 

  E cres­cia para o vel­ho, sem­pre cal­ado e imóv­el. Foi en­tão que o ró Petinga, ven­cen­do o me­do, con­seguiu falar: voz rou­ca, húmi­da de sangue, mor­di­da pe­lo ódio:

  - «Dêxe o vel­ho que na tem cul­pa, sô capitão. Ta­mos to­dos d'acor­do: es­ta cam­pan­ha na vai con­si­go p'r'a Groelân­dia! Volte a Por­tu­gal e trate d'ar­ran­jar out­ra. A gente na vai! Ah, homes, é ou não ver­dade is­to qu'eu di­go?!»

  E to­dos, aque­cen­do, toman­do ân­imo, ul­ularam: 

  - «Na va­mos! Na quer­emos ir!!!» 

  O capitão chegara ao auge: Num ur­ro medonho, atirou-​se ao ra­paz agar­ran­do-​o pela go­la do casaco e, abanan­do-​o em fre­nes­im, quase o mantin­ha lev­an­ta­do do so­lo... 

  - «Ah, fil­ho dum cão! ah, grandessís­si­mo ma­lan­dro! en­tão tu tens a cor­agem de me diz­er, a mim, na min­ha cara que…» 

  A rai­va su­fo­cou-​o. To­dos es­per­avam que ele descar­regasse o pun­ho ter­rív­el so­bre a cabeça do moço: Es­pas­modica­mente, as mãos dos home­ns con­traíram-​se; al­guns chegaram mes­mo a dar um pas­so em frente; o ti 'Rufi­no, ago­ra afli­to, pux­ava o Petinga para trás... Mas, de súbito, o capitão afas­tou, bru­tal, o moço para o la­do e avançou para o grosso da com­pan­ha: 

  - «Ah, ele é is­so? Não vão, não é as­sim? Não querem ir?..  Re­voltam-​se?! Fiquem saben­do que is­to é uma re­be­lião e por tal haveis de pa­gar, à fé de quem sou! Es­tá por­tan­to as­sente: Não seguem para a Groen­lân­dia?! E quem man­da? Não há capitão neste navio? Quem man­da aqui, des­graça­dos?! Pois haveis de ir, es­sa vos ju­ro eu: Vão, vão e tor­nam a ir!!»

  O ti'Rufi­no, de cabeça baixa, a ol­har para o chão, a voz mais tré­mu­la, mas níti­da ain­da, ob­sti­nada­mente, con­seguiu ar­tic­ular: 

  - «Na­da, só capitão, na ve­ja nis­to cal­quer ofen­sa con­tra vosse­mecê, mas a gente na pode ir: os homes ar­receiam ess­es mares es­tran­hos. Ca­da qual tem a sua própria família: have­mos de deixar-​nos matar?!» 

  - «E quem lh­es disse que o mar da Groen­lân­dia é pi­or que este, aqui da Ter­ra No­va? Ten­ham ver­gonha nes­sas caras, não se­jam mar­ic­as!...» -volvia o capitão. 

  - «Na va­mos!» -ousou o Zé Cra­vo. 

  - «Vão! Quero eu!! Man­dou eu!!!»

  E o Ca­jeira, es­puman­do de rai­va, da­va pon­tapés apoc­alíp­ti­cos num mol­ho de cor­das para ali ar­ru­ma­do: Metia me­do o homem! Com os grandes ol­hos con­ges­tion­ados e san­gren­tos a saírem das ór­bitas, fuzila­va os pescadores, em relâm­pa­gos du­ma vi­olên­cia sel­vagem: 

  - «Oiçam...oiçam du­ma vez para sem­pre, seus poltrões: Eu prometi ao ar­mador que havia de ir com este navio à Groen­lân­dia, que só voltaria a Por­tu­gal com o porão cheio de ba­cal­hau... Prometi-​lhe eu, em­pen­hei nis­so a min­ha palavra!! Es­tão a ou­vir bem? Nun­ca, nun­ca até ao dia d'ho­je, o capitão Ca­jeira fal­tou à sua palavra! Nun­ca!!!» 

  - «A água gela...» -choramin­gou o Toino da Ze­fa. 

  - «Mor­ríamos de frio…» -in­sis­tiu o Manel do Rosário. 

  - «Na quer­emos ir!!» - gri­tou mais uma vez, de no­vo bravio, o Zé Cra­vo. 

  Por mo­men­tos, o capitão ol­hou o moço em silên­cio, cru­el­