Title: Núpcias Marinhas
Author: Virgílio Várzea
CreationDate: Fri Jul 17 12:04:00 BST 2009
ModificationDate: Tue Jul 07 13:00:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  Núp­cias Mar­in­has

  Virgílio Várzea

  A Vela dos Náufra­gos, O Vel­ho Sumares e Núp­cias Mar­in­has foram ex­traí­dos do livro Mares e Cam­pos.

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-11-2

  Lis­boa, Agos­to de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

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  NÚP­CIAS MAR­IN­HAS

  A VELA DOS NÁUFRA­GOS

  (Ao Dr. Gama-​Rosa)

  I

  A lesta­da amainara após seis dias de fúria tremen­da, em que o pe­queno ar­ra­ial dos In­gle­ses jaz­era, agacha­do e tran­si­do, sob as báte­gas dilu­vi­ais e os es­pes­sos nevoeiros. A cos­ta to­da, des­de a Lagoin­ha até à Pon­ta Grossa, es­tivera aban­don­ada e de­ser­ta, sob a acção ater­rado­ra dos va­gal­hões re­voltos, es­touran­do, dia e noite, em cachões es­pumantes, que ala­gavam as pra­ias, os baix­ios e os cô­moros, tur­bil­ho­nan­do ul­ulante­mente so­bre os mais al­tos cabeços. Tu­do ficara aban­don­ado, para­do, ao deus-​dará por aque­la se­mana; nen­hu­ma rede se ar­riscara no meio da tor­men­ta; ces­sara de to­do o tra­bal­ho. E a po­bre e la­bo­riosa pop­ulação do lu­gar, con­de­na­da ã in­acção, per­manecera penosa­mente du­rante ess­es dias, que se ar­ras­tavam lon­gos e cheios de mis­éria, toma­da de té­dio, en­col­hi­da, ap­in­ha­da em casa, tremen­do de frio em ro­da dos bra­seiros em chamas.

  Mas voltara o bom tem­po. Uma madru­ga­da de ouro, umas dessas mar­avil­hosas madru­gadas catari­nens­es no litoral atlân­ti­co, vin­ha re­sp­lan­de­cen­do feeri­ca­mente. O céu, no al­to, ar­quea­va-​se to­do azul, do azul ide­al e trans­par­ente de uma vel­ha fa­iança holan­desa. As pra­ias límp­idas e cur­vas, e os cordões su­ces­sivos dos cô­moros ex­ten­sos, desta­cavam mag­nifi­ca­mente, à luz, n'uma alvu­ra ce­gante de tri­go. E a pla­nu­ra verde do mar, lev­emente on­du­la­da, na es­tag­nação de uma vas­ta cal­maria, es­ten­dia-​se para to­dos os la­dos, aqui e além mosquea­da de al­tos relevos de il­has en­cravadas em grandes anéis movediços de es­puma. A cos­ta in­teira tin­ha de no­vo a ale­gria e o alvoroço das man­hãs de bo­nança: pe­los ran­chos, re­uni­am-​se já, n'uma rui­dosa al­gazarra marí­ti­ma, os pe­quenos gru­pos de ro­ceiros e pescadores do sí­tio; canoas grandes de rede, car­regadas e prontas, toma­da a pala­men­ta, aguar­davam a faina, so­bre grossos ro­los de madeira; ve­las cur­vas em bo­jo cruzavam ao longe, n'um voo bran­co, co­mo grandes asas ligeiras; e uma em­bar­cação maior, um iate, que pare­cia o An­dor­in­ha, do Joaquim Patesca, bor­de­ja­va a to­do pano, em di­recção ao por­to, na al­tura do Ar­vore­do.

  En­tão, a Maria Virgí­nia, que es­quadrin­ha­va min­uciosa­mente o mar des­de muito ce­do do al­to do pe­queno ter­reiro da casa, seguin­do aten­ta­mente o navio, mal o viu aprox­imar-​se, na at­itude de dar fun­do, começou a de­scer apres­sa­da a en­cos­ta até à ven­da do Lemos, a col­her notí­cias do Es­padarte, o brigue onde an­da­va o mari­do, o Manuel Siqueira, e que ar­ran­cara para o Rio Grande na véspera da medonha tor­men­ta. Es­ta­va abati­da, ma­gra, des­fei­ta, a po­bre ra­pari­ga, que ain­da há três anos era a primeira beleza dos In­gle­ses. Tin­ham-​na pos­to nesse es­ta­do os dois fil­hos que cri­ava, dois her­cúleos fedel­hos rosa­dos, de um louro rem­brandtesco, e os cuida­dos, os temores e as aflições daque­la se­mana, em que a sua al­ma não tivera sossego, a se de­bater, à noite, no meio de pe­sade­los hor­ríveis, em que, por vezes, flu­tu­avam, co­mo n'um quadro es­tran­ho de Doré, um cas­co de