 navio per­di­do e a im­agem ama­da do mari­do, aban­don­ada e náufra­ga, n'um de­ses­pero, so­bre as on­das do mar em fúria. Per­cor­ren­do ner­vosa­mente o tor­tu­oso atal­ho ver­mel­ho, que se tor­cia en­tre a ver­du­ra es­pes­sa, ela não tira­va, um in­stante só, o ol­har an­sioso de so­bre as va­gas verdes onde, ago­ra, um pe­queno batelão a re­mos vo­ga­va a to­da a força para ter­ra: es­tu­ga­va o pas­so com es­forço, para col­her as notí­cias dos próprios mar­in­heiros, falar-​lh­es, per­gun­tar-​lh­es de onde vin­ham, e se tin­ham apan­hado a tor­men­ta. Mas o atal­ho de­prim­ia-​se aí até cair na estra­da do rei, dis­tante ain­da muitas braças dos cô­moros, e o batelão, já con­tra a cos­ta, sumi­ra-​se-​lhe da vista que, nesse in­stante, ape­nas al­cança­va uma es­teira bran­ca de es­puma smorzan­do saudosa­mente para além...

  No por­to, um grupo de home­ns aglom­er­ava-​se já em torno da pe­que­na em­bar­cação, em que vin­ham dois trip­ulantes do iate e o con­tramestre Pe­dro, um ra­paz dos Mor­retes, que li­da­va no mar de meni­no e era muito con­heci­do e es­ti­ma­do em to­da aque­la viz­in­hança. De pé, à popa do batelão, o grosso tórax pos­sante at­aca­do n'uma am­pla camisa de flanela azul, com be­lo peito es­car­late em for­ma de li­ra e or­na­do de bol­so, o boné car­rega­do so­bre os ol­hos, gri­tou:

  -Oh gente, cá es­ta­mos de no­vo! Tu­do a sal­vo... Fe­liz­mente, des­ta vez, o mar re­jeitou-​nos!

  De um pu­lo de­stro saltou, dis­tribuin­do aqui e ali aper­tos de mão, fa­lan­do a um e out­ro, to­do rison­ho, n'uma rude ex­pan­são de marí­ti­mo; e avi­stan­do o Lemos à por­ta da ven­da, ro­tun­do e rubro na sua camisa de al­go­dão grosso:

  -Olá! Ol­ha uma bela pin­ga da bran­ca! 

  E rompeu, pra­ia aci­ma, a fortes pas­sadas gi­gantes, que fazi­am can­tar vi­va­mente, sob as so­las das bo­tas, a al­va areia es­cal­dante.

  A Maria Virgí­nia chegou à pra­ia ex­aus­ta, ofe­gante, as per­nas tré­mu­las, quase a cair de fadi­ga. Quan­do en­trou na ven­da, o con­tramestre Pe­dro, cer­ca­do de po­vo, a fi­siono­mia an­ima­da, lo­quaz e ges­tic­ulante, per­ora­va, com ar­dor, so­bre o tem­po­ral. 

  -Havia muito tem­po, dizia, não se sabia de taman­ha bor­ras­ca ao sul. Nem na cos­ta da La­gu­na, nem em Ita­jahy, nem na bar­ra do Rio Grande... Fazia já vinte anos que ele se ba­tia com o mar, em in­úmeras lat­itudes, sob agua­ceiros e tro­voadas medonhas, mas ja­mais vi­ra tan­to ven­to e taman­hos va­gal­hões. Ver­dadeiras mon­tan­has d'água, deslo­can­do-​se, es­bar­ran­do-​se n'uma fúria dos demónios... Bor­de­ja­va para fo­ra, na Bar­ra Vel­ha, quan­do a lesta­da caiu. A princí­pio, aguen­tou-​se com pouco pano -vela grande nos rizes e bu­jar­rona, -a ver no que da­va aqui­lo. Mas o iate era um cabri­to -salta­va, empina­va-​se, in­ves­tia na va­ga ameaçan­do ir a pique. Ten­tou uma ar­rib­ada, porém a cos­ta to­da sumi­ra-​se: nevoeiros den­sos amor­tal­havam tu­do, car­rega­dos de cin­za. En­tão pôs-​se à ca­pa, e to­ca a ro­lar para aí... Seis dias e seis noites vo­gou per­di­do, aos tom­bos, no re­de­moin­ho das águas. Ninguém par­ava, ninguém dormia, n'uma faina in­ces­sante. Até que, naque­la man­hã, a bor­ras­ca amainara de to­do e, sem saber co­mo, por um aca­so im­pre­vis­to, quase um mi­la­gre, avis­tou ter­ra, por barlaven­to, à dis­tân­cia de mil­has. Re­con­heceu lo­go o Ar­vore­do, os In­gle­ses, e puxara to­do à boli­na. E ali es­ta­va, graças a Deus, são e per­feito, com aque­la cas­ca de noz do An­dor­in­ha e to­da a sua com­pan­hia... 

  Quan­do ele acabou, a Maria Virgí­nia, que ou­vi­ra tu­do aten­ta­mente, imóv­el e muito pál­ida, o coração pal­pi­ta