 de braças. Ago­ra, das enxár­cias, domi­na­va-​se-​lhe to­da a vas­ta tol­da: à popa, o co­man­dante e al­guns ofi­ci­ais movi­am-​se fu­riosa­mente, em manobras de­ses­per­adas, en­quan­to out­ros, às ba­te­rias man­davam o fo­go.

  To­do o hor­izonte em torno de­ser­to no seu grande dis­co nos­tál­gi­co. E o mar, de al­tos va­gal­hões, desvi­ava as pon­tarias, ar­ran­can­do pra­gas aos ar­til­heiros fu­riosos. 

  O Gal­go, quase para­do na ausên­cia dos ven­tos, pare­cia en­tre­gar-​se, n'uma fadi­ga de an­imal cansa­do, à ex­plo­si­va fúria in­imi­ga. O vel­ho Sumares, ao cataven­to, sob as balas cruzan­do o con­vés à ré, sem poder cor­re­spon­der ao ataque, n'uma ín­ti­ma e in­ten­sa re­vol­ta de en­co­ler­iza­do, pos­to que ex­te­ri­or­mente cal­mo, ol­ha­va, em meio do ranger zarro das ver­gas e dos mas­tros onde o pano mur­cha­va, as evoluções do navio, sacud­in­do leon­ina­mente a grande bar­ba es­pes­sa e a bela cabeça al­va. 

  O Con­test, porém, não adi­anta­va mais uma braça, meio atrav­es­sa­do, só ati­ran­do com os can­hões de bom­bor­do. 

  Du­rante duas ho­ras o Gal­go não fo­ra atingi­do; mas, de re­pente, uma bala atrav­es­sou-​lhe as amu­radas. Foi um choque hor­rív­el, segui­do de out­ro que de­spedaçou a lan­cha grande, nos pi­cadeiros, so­bre as es­cotil­has fechadas. No porão, nesse in­stante, cor­reu co­mo a zoa­da abafa­da de um ga­do pre­so, tu­mul­tuan­do. E guin­chos loucos sil­varam, en­tre­vante do mas­tro do tra­que­te, pe­lo es­cotil­hão aci­ma. O con­tramestre, com três mar­in­heiros, ar­ran­cou lo­go o quar­tel gradea­do, e de­sce­ram to­dos, de cal­abrote em pun­ho...

  O vel­ho Sumares es­treme­cia, n'um de­ses­pero bru­tal, ob­ser­van­do to­dos os movi­men­tos do in­imi­go con­tra a bal­austra­da. E lo­go grossas vozes de co­man­do ir­romper­am-​lhe dos lábios. Os mar­in­heiros acud­iram ime­di­ata­mente, gal­gan­do os en­frechates, no meio do fo­go gri­tan­do de es­paço a es­paço. 

  Pela primeira vez, nesse mo­men­to, o sangue cal­mo do vel­ho marí­ti­mo, sub­le­va­va-​se naque­la tol­da rasa, mas sem o trair ape­sar do grande aba­lo. 

  As balas in­gle­sas chovi­am, en­tre­tan­to, so­bre o tombadil­ho a jog­ar, car­regan­do tu­do n'uma dev­as­tação formidáv­el -o es­pel­ho da popa, a gaiu­ta, as pi­pas da agua­da... 

  E to­da a com­pan­ha tin­ha ago­ra movi­men­tos atóni­tos, sob o fo­go que au­men­ta­va. 

  O pi­lo­to porém, à proa, an­ima­va-​a com a sua rude cal­ma e ale­gre voz­eria, man­dan­do sa­far os ovéns e brandais que se de­spedaçavam. Era um ra­paz dos Açores, de trin­ta anos, ro­bus­to e vi­vo, de uma in­trepi­dez colos­sal. O vel­ho Sumares con­hecia-​o des­de meni­no e ado­ra­va-​o pela sua cor­agem. Fo­ra is­so que o fiz­era, ain­da muito jovem, gen­ro e pi­lo­to do vel­ho lobo do mar. 

  Mas a brisa do norte começa­va a cair fres­ca, e o Gal­go au­men­tara já a sin­gra du­ra quan­do lhe ac­er­tou um balázio n'um mas­tro. En­tão, em to­do o navio hou­ve co­mo um es­tremeção ger­al, n'um formi­dan­do ruí­do de der­ro­ca­da -e panos, ver­gas, mas­taréus e mas­tro en­traram a flu­tu­ar em ro­da, des­feitos, aos pedaços, co­mo ar­rebata­dos n'um tem­po­ral. E, subita­mente, vinte pul­mões vig­orosos es­tru­gi­ram, n'uma ex­plosão de pra­gas: 

  Má raios os par­tam!...Co­vardes!...Má raios os par­tam... 

  Fo­ra o mas­tro grande que reben­tara cain­do de través so­bre o trin­can­iz, de­stru­in­do a bor­da fal­sa. 

  -Fe­liz­mente, ninguém apan­hado! -gri­tou o con­tramestre, que vin­ha para a popa, bran­co co­mo a cal. 

  E o vel­ho Sumares, jun­to ao leme, berra­va, apopléc­ti­co, a brace­jar: 

  -Salta à 