ré! salta à ré! Com um mil­hão de di­abos! Safa, safa!...

  A gente caiu, n'uma ra­ja­da, so­bre os de­stroços da cor­doal­ha, coal­han­do to­do o con­vés, por cima da câ­mara, e rompeu a cor­tar à machad­in­ha e à fa­ca os ca­bos, en­quan­to o navio atrav­es­sa­va ba­ten­do as ve­las de proa.

  So­bre os va­gal­hões em torno, boiavam ago­ra sin­is­tra­mente, pedaços de mas­tro co­mo de­spo­jos de um naufrá­gio. 

  O Con­test, que fo­ra deix­ado longe, ces­sara já de ati­rar.

  A guarnição do Gal­go, n'uma faina tra­bal­hosa sa­fara, em poucos mo­men­tos, o con­vés, e o brigue, es­ta­ia­do o tra­que­te, vi­rara lo­go, deixan­do tu­do para trás, so­bre o mar...

  Quan­do o crepús­cu­lo se de­sen­hou a oeste, alas­tran­do o hor­izonte, n'uma va­ga ilu­mi­nação doura­da, já o ter­rív­el cas­co britâni­co de­sa­pare­cera, co­mo soço­bra­do... 

  V

  Daí a dias, n'uma es­plên­di­da man­hã de sol vi­vo e mar cal­mo, o navio, só com um mas­tro, en­tra­va vi­to­riosa­mente o Ar­vore­do. Fun­deara na Pon­ta das Canas, onde fo­ra lança­do o car­rega­men­to e no out­ro dia, à tarde, o vel­ho Sumares seguiu para o Dester­ro onde, des­de o aman­hecer, não se fala­va senão no Gal­go. 

  Por to­da a parte, nas ruas e nas casas, o nome do céle­bre mare­ante cin­tila­va co­mo o de um per­son­agem fan­tás­ti­co, em meio as ex­cla­mações e co­men­tários. E du­rante meses, foi es­sa ex­traordinária vi­agem o as­sun­to mais queri­do das palestras en­tre aque­las pop­ulações da beira-​mar, que têm to­da uma sim­páti­ca predilecção pelas lendas marí­ti­mas.

  O vel­ho Sumares nun­ca mais em­bar­cou, ex­pi­ran­do aos noven­ta anos de idade, en­tre os car­in­hos de­li­ciosos das fil­has e dos ne­tos, na sua pitoresca habitação da Arat­aca. E a história da sua vi­da rude e aven­tur­osa ain­da é ho­je relem­bra­da, com in­efáv­el ter­nu­ra, na placidez ven­tur­osa dos serões, nos lares.

  Rio, 1892. 

  NÚP­CIAS MARI NHAS

  (A Bel­larmi­no Carneiro)


I


  O pe­queno ar­ra­ial da Pon­ta Grossa, n'es­sa clara man­hã de Janeiro, des­per­tara ale­gre e rui­doso, co­mo nos dias de grande pesca, pe­lo tem­po das tain­has, ao cair das primeiras geadas. Na pra­ia re­cur­va, de areia alvís­si­ma, es­ten­den­do-​se na dis­tân­cia de um quilómetro, des­de o tab­uleiro doura­do do lon­go pon­tal ao sul, até à crista de rochas ne­gras e al­tas ao norte, onde o mar sacode, noite e dia, em va­gal­hões es­pumosos, largas bar­ras de pratea­da es­cumil­ha – re­madores das re­des, em camisa e calças ar­regaçadas, grandes chapéus de pal­ha à cabeça, fu­mavam e pal­ravam rus­ti­ca­mente, de pé, em vol­ta de duas imen­sas canoas de vo­ga, al­ca­troadas de no­vo, que, postadas so­bre grossos ro­los de madeira, de proa para o mar, e pala­men­tadas, os be­ques fi­nos er­gui­dos, es­per­avam, prontas a in­ve­stir con­tra as on­das.

  Era o casa­men­to da fil­ha mais no­va do Rufi­no Bas­tos, a Ros­in­ha, com o João Aguiar, um be­lo ra­paz vig­oroso, pa­trão de uma das re­des do pai: esse ac­to ia efec­tu­ar-​se na igre­jin­ha de San­to An­tónio, uma fregue­sia pitoresca e agreste, que fi­ca­va do out­ro la­do, à margem es­quer­da do Ra­tones, cor­tan­do ali as ter­ras com o seu largo es­tuário. De­vi­do a esse em­baraço do rio e à po­breza do ar­ra­ial, que nem ao menos pos­suía uma capelin­ha -anti­ga e úni­ca as­pi­ração daque­la boa gente adoráv­el! -os con­sór­cios e bap­ti­za­dos fazi­am-​se sem­pre por mar, em mag­ní­fi­cas monções, sob um tem­po límpi­do e cal­mo, o que não evi­ta­va, en­tre­tan­to, um ou out­ro de­sas­tre, de longe em longe, quan­do so­brevin­ha in­opinada­mente al­gum tem­po­ral.

  O rison­ho prést