i­to com­pun­ha-​se de duas ou três nu­merosas famílias do lu­gar -a gente do noi­vo e da noi­va, e mais ami­gos, con­heci­dos e com­padres cam­in­han­do ale­gre­mente, pos­to que um pouco con­trafeitos naque­las roupas das fes­tas, mas em agradáv­el e an­ima­da palestra. À frente de to­dos vin­ha a Ros­in­ha, pe­lo braço do pai, for­mosa e ten­ta­do­ra, a bo­ca rubra, os pes­tanudos ol­hos baixos, as faces vi­va­mente coradas, e a fronte vir­ginal in­cli­na­da sob o véu fi­no de tule. Seguiam-​se as pes­soas que iam teste­munhar o noiva­do -pela Ros­in­ha, o tio João Luís e a tia Ana Mafra, um casal já idoso, com a cabeça alve­ja­da do decor­rer dos anos; pe­lo João Aguiar, o Jac­in­to Cun­ha e a es­posa, ro­bustís­si­mo par de lavradores, ain­da moços, louros, com um ros­to cor de lacre; e as ir­mãs dos nubentes, as pri­mas e ca­ma­radas -um ban­do de moças, de en­tre quinze e vinte anos, gra­ciosas, ale­gres, in­efáveis. Mais atrás, n'um grupo de ra­pazes, na sua maior parte com­pan­heiros de rede e seus ín­ti­mos, vin­ha o noi­vo, marchan­do fe­liz, com os om­bros enormes muito aper­ta­dos n'um fraque no­vo de pano, a gra­va­ta al­va con­fundin­do-​se com a camisa tesa de go­ma, a al­ta cabeça er­gui­da, os lábios rison­hos, os ol­hos re­luzin­do, ne­gros, na pele queima­da. 

  Quan­do chegaram à pra­ia, os trip­ulantes, que ol­havam aten­ta­mente o des­fi­lar do corte­jo des­de o al­to da estra­da, en­traram a bo­tar as canoas para baixo. En­tão, de popa para ter­ra, pal­pi­tan­do já so­bre as águas balouçantes, as em­bar­cações começaram a tomar os con­vi­da­dos. E lo­go após, sob a força pos­sante dos re­mos, se afas­taram ao largo.


II


  Do al­to do mor­ro, no para­peito bran­co do vas­to ter­reiro mu­ra­do, onde alve­ja­va, ca­ia­do de fres­co, o frontal largo e acaça­pa­do da casa do Bas­tos, com as suas cin­co janelas aber­tas aos ven­tos do mar, deixan­do en­trar am­pla­mente o sol e to­dos os aro­mas e ru­mores da Na­tureza em vol­ta -pes­soas da família, que tin­ham fi­ca­do ar­ru­man­do tu­do para as bo­das, ol­havam, de­bruçadas, e n'um grande en­ternec­imen­to, o afas­tar lento e saudoso do corte­jo mar­in­ho so­bre a pla­nu­ra verde e mansa das águas. De en­tre elas -na maior parte mul­heres e cri­anças, porque os home­ns tin­ham ido to­dos no présti­to -se desta­ca­va, ven­er­ati­va­mente n 'uma at­itude do­lente e nos­tál­gi­ca de Mater-​Do­lorosa, a Maria Bas­tos, a ex­tremosa mãe da Ros­in­ha, que, muito co­movi­da, o ros­to rosa­do e moço ape­sar dos anos, es­pir­itu­al­iza­do n'uma va­ga saudade, acom­pan­ha­va, al­hea­da de tu­do, o es­pumante sin­grar das canoas. Não sabia bem porquê, mas sen­tia ago­ra co­mo um aper­to, um pe­so enorme oprim­ir-​lhe o coração, ela tão ale­gre até ali com o casa­men­to da fil­ha. Era in­ex­plicáv­el! Tin­ha um va­go pressen­ti­men­to de que iam so­bre­vir grandes tris­tezas, lu­tos, uma imen­sa des­graça... E aqui­lo in­vadi­ra-​a in­opinada­mente, à maneira dessas tro­voadas súbitas que toldam de re­pente o puro azul dos céus de Verão. Por mais que fizesse, não po­dia su­fo­car semel­hantes ideias que a de­prim­iam, a es­ma­gavam an­gus­tiosa­mente. Ninguém mais do que ela de­se­ja­va aque­la união, pois fo­ra a bem diz­er pe­los seus es­forços que con­seguira o «sim» do mari­do para o João, quan­do este lhe es­crevera pedin­do a mão da Ros­in­ha. Porque o Rufi­no, a princí­pio, ig­no­ran­do o namoro de am­bos, e de­pois con­trar­ian­do-​o sem­pre que po­dia, declarara-​lhe lo­go «que não». Re­con­hecia que o ra­paz era bom, hon­esto, vi­vo, tra­bal­hador, mas não tin­ha meios e es­ta­va ain­da muito no­vo. «Não! que es­perasse mel­hor ocasião.» E calara-​se, franzin­d