o os so­brol­hos, n'uma aus­teri­dade de vel­ho marí­ti­mo, duro e car­ran­cu­do co­mo um leão. Ela porém, a es­posa, que sabia do pro­fundís­si­mo amor que se votavam as duas criat­uras des­de os mais ten­ros anos, e que bem via que aqui­lo po­dia talvez traz­er a in­fe­li­ci­dade para o seu lar, sem­pre tão cheio de serenidade e doçu­ra, en­trou a pedir con­stan­te­mente, car­in­hosa e su­pli­cante, o con­sen­ti­men­to do es­poso, que afi­nal acedeu, mar­can­do tu­do para aque­le ano. E fo­ra uma grande ale­gria para to­dos!...No en­tan­to, ago­ra, sem saber co­mo, in­va­dia-​a es­tran­ho pressen­ti­men­to... Que es­taria para suced­er, san­to Deus?...

  As em­bar­cações, vo­gan­do par­ale­la­mente, sep­aradas por pe­que­na dis­tân­cia, voltavam ago­ra o pon­tal, cain­do no am­plo es­tuário, onde a cor­rente im­petu­osa do rio, lu­tan­do com o mar in­va­di­do, er­guia grossos frisos on­du­lantes de es­puma. Os seus cas­cos, es­guios e ne­gros, de­sen­rolan­do pela popa fo­ra duas imen­sas faixas de es­có­cia al­va­dia, iam-​se ocul­tan­do, pouco a pouco, na som­bra de duas il­has al­tas e fron­dentes, emergin­do em lin­ha do es­pel­ho azul do oceano, co­mo duas es­mer­al­das gi­gantes. 

  As mul­heres e cri­anças, não po­den­do dis­tin­guir mais as canoas naque­la posição, já muito dimin­uí­das ao longe, tin­ham deix­ado o para­peito e volvi­am nesse in­stante à li­da da casa, que se en­feita­va to­da para a vol­ta dos noivos. A Maria Bas­tos, porém, não de­spe­gara, um mo­men­to SÓ, do pe­queno paredão; e, triste e lac­rimosa, iso­la­da e SÓ, per­di­da nas del­icadezas do sub­lime e in­efáv­el afec­to de mãe, com o fil­hin­ho mais no­vo ao co­lo, um be­bé lin­do e rison­ho que se lhe de­bruça­va so­bre o om­bro ol­ha­va ain­da aque­le «noiva­do da sua al­ma», que lá ia boian­do, boian­do... 


III


  No en­tan­to, no corte­jo além, so­bre o mar, to­dos iam ale­gres. Parola­va-​se vi­va­mente da abundân­cia das cul­turas e da riqueza da pesca. O ano que find­ara havia si­do, co­mo poucos, da mais am­pla far­tu­ra. Prou­vera a Deus que o mes­mo acon­te­cesse com aque­le, cu­jos primeiros dias iam decor­ren­do ven­tur­osos, com prenún­cios de fe­li­ci­dade! 

  Na canoa grande -a mel­hor e a mais se­gu­ra das que fazi­am o serviço das re­des na Pon­ta Grossa –, onde se aco­modara o Rufi­no, com os padrin­hos, os noivos e mais pes­soas da família, o João Aguiar, que por in­genuidade e acan­hamen­to fo­ra sen­tar-​se quase jun­to aos ban­cos de proa, não ces­sa­va de con­tem­plar a Ros­in­ha, com os seus be­los ol­hos cas­tan­hos, deli­ci­ado e fe­liz, n'um em­bevec­imen­to. Ela, por sua vez, ol­ha­va-​o tam­bém, ven­tur­osa e cheia de ter­nu­ra, mas tim­ida­mente, furtiva­mente, a face muito rosa­da sob o teci­do ténue do véu, de­scen­do-​lhe pelas costas em lon­gas pre­gas de bru­ma. Es­sas duas al­mas cristali­nas, sim­ples, ado­ra­ti­vas e cân­di­das, que se alvoroçaram uma só vez ao jor­rar da primeira paixão, e que vivi­am sem­pre, des­de a in­fân­cia, uma pela out­ra ba­ten­do, do­ce­mente, in­in­ter­rup­ta­mente -cruzavam-​se em silên­cio, nos mei­gos ol­hares de am­bos, dan­do-​lh­es um mú­tuo e per­enal en­can­to, tres­pas­san­do-​os de um go­zo leve e suave, à maneira de um doce flu­ido mag­néti­co, que vi­brasse, com igual propul­são, en­tre os seus peitos amantes. Ago­ra, que iam para sem­pre unir-​se, n'um mes­mo con­tac­to e n'uma mes­ma pal­pi­tação, pare­cia que se diziam mu­da­mente, n'uma emoção de­li­ciosa: - «En­fim!... En­fim!...» Por so­bre eles ru­more­ja­va praze­rosa­mente a voz rou­ca e grossa dos vel­hos, em ale­gre ex­pan­si­bil­idade, e es­ta­la­va sono­ra­mente, em es­fuzi­a