das límp­idas, o chorai de risadas tilin­tantes das ra­pari­gas em fes­ta. 

  Na out­ra em­bar­cação, havia tam­bém um con­tenta­men­to rui­doso, sacud­in­do as al­mas de ben­di­to es­plen­dor, co­mo os pe­quenos va­gal­hões do es­tuário sacu­di­am as canoas. E até os re­madores -uns oito home­ns ro­bus­tos, quase to­dos ra­pazes, de tron­co atléti­co e pescoço de touro, o ros­to tin­to pe­lo sol do mar -ri­am-​se es­plen­di­da­mente, com os seus dentes muito alvos, o coração sat­ura­do da ale­gria das coisas, o cor­po met­ri­ca­mente bal­ançan­do no movi­men­to vi­vo e con­tín­uo dos re­mos.


IV


  O Sol já ia al­to quan­do as canoas chegaram à pra­ia, uma lon­ga faixa de areia finís­si­ma, ful­gu­ran­do n'uma poeira doura­da. As casas de San­to An­tónio, beiran­do em lin­ha ao lon­go da cos­ta, a pe­que­na dis­tân­cia, es­tavam fechadas e co­mo adorme­ci­das sob a luz es­cal­dante. No por­to, àquela ho­ra bati­do por uma fra­ca brisa do norte so­pran­do lev­emente, não se via viv'al­ma. Tu­do per­mane­cia em paz, ape­sar da glo­riosa ra­di­ação do céu, sob o silên­cio adorme­ci­do e vas­to dos meios-​dias nos sí­tios. As ven­das, onde se bebe e al­gazarra tran­quil­amente, es­tavam vazias; e só ao longe, n'um re­can­to onde o sol fais­ca­va deslum­brado­ra­mente, em es­ca­mas de ouro vivi­do so­bre a planí­cie líqui­da, um grupo de home­ns se desta­ca­va, moven­do-​se lenta­mente, na faina da pescaria. 

  O de­sem­bar­que efec­tu­ou-​se mag­nifi­ca­mente, e o noiva­do foi subindo a pe­que­na rua que vai dar n'um grande largo gramoso onde se acha erec­ta a igre­jin­ha da fregue­sia, recol­hi­da e hu­milde, de­sp­ida de tor­res, com o seu fron­tãoz­in­ho amare­lo, ao la­do di­re­ito do qual se er­guem toscos paus ao al­to, enci­ma­dos por um trav­es­são, de onde pende um sinoz­in­ho. 

  Ao ru­mor do présti­to atrav­es­san­do por en­tre as casas, aqui e ali, cabeças cu­riosas as­so­mavam às janelas. Um ou out­ro transe­unte par­ava, pas­man­do os ol­hos in­gén­uos e do­ces naque­le grupo fes­ti­vo. E magotes de cri­anças, que cos­tu­mam va­gar pe­los cam­in­hos em cor­re­rias con­tínuas, sur­giam pouco a pouco, in­cor­po­ran­do-​se ao corte­jo, em zurz­ina­da vivís­si­ma. 

  Na igre­ja, o noi­vo, a noi­va e os padrin­hos tiver­am de aguardar, du­rante muitas ho­ras, com cer­ta im­paciên­cia rev­elando-​se nos sem­blantes a que a vi­agem de­ra um ar de fadi­ga, a chega­da do vigário, um vel­hin­ho gor­do e catar­roso, de cabeça al­va­dia, que us­ava ócu­los, e que era ago­ra, em to­dos os ac­tos do cul­to, um re­tar­datário re­mis­so Os out­ros, en­quan­to is­so, er­ravam dis­per­sos pela nave, paran­do jun­to às pare­des muito ca­iadas, de queixo e'1:ui­do, a con­tem­plar ad­mi­ra­ti­va­mente e com grandes ol­hos deslum­bra­dos, os vários san­tos mal es­culpi­dos, meti­dos nos seus nichos, a tábua dos altares, os ramos, os reg­is­tos col­ori­dos, as toal­has de ren­da, as flo­res mur­chas e os castiçais doura­dos…

  Quan­do ocor­reu a cer­imó­nia era quase meia tarde. O sol en­trara a es­ma­iar para um amare­lo frio, d'ocre. Ao sul, so­bre as mon­tan­has do Cu­batão, grossas nu­vens de tro­voa­da começavam a aden­sar-​se vaga­mente n'um fun­do es­fumin­hado e som­brio; e pe­lo al­to do céu, ain­da muito trans­par­ente e níti­do, flu­tu­avam já grandes flo­cos de al­go­dão, del­ga­dos e fel­posos co­mo lon­gas brochadas de tin­ta. Er­am os con­heci­dos ra­bos de ga­lo, que anun­ci­am aos marí­ti­mos a im­inên­cia de pam­peiros ter­ríveis.

  To­dos, en­tão, so­bres­salta­dos com a súbi­ta mu­dança do tem­po – tão co­mum naque­le lu­gar du­rante o Verão – di­ri­gi­ram-​se para a pra­ia,