 n'uma mar­cha bati­da. Os in­trépi­dos re­madores, que des­de muito ob­ser­vavam a aprox­imação da tor­men­ta, os es­per­avam já, posta­dos aos re­mos, pron­tos a largar ao primeiro sinal. E o em­bar­que re­al­izou-​se, n'uma pres­sa ag­ita­da e con­fusa, em que as moças sen­ti­am co­mo uma va­ga in­qui­etação, ou­vin­do os home­ns gri­tar pres­saga­mente: 

  -O pam­peiro! O pam­peiro!


V


  Na Pon­ta Grossa al­gu­mas re­des que cer­cavam, apres­savam nesse in­stante os lanços, re­ce­an­do a fúria do mar, que era ali, sob os tufões, de um efeito ex­traordinário, porquan­to a pra­ia cor­ria em leve cur­va en­viesa­da, to­tal­mente ex­pos­ta aos ven­tos ri­jos do sul, e os va­gal­hões, ba­ten­do de través, adquiri­am sem­pre pro­porções bru­tais. Daí os in­úmeros naufrá­gios que se davam e que tão temi­da tor­na­va es­sa pon­ta de rochas às em­bar­cações do tráfego, cruzan­do fre­quente­mente aque­las par­agens. 

  Gru­pos de pescadores, jun­to aos ran­chos de pal­ha, ob­ser­van­do o lento con­den­sar da tor­men­ta nos ares, co­men­tavam au­gu­ral­mente uma má vol­ta para o noiva­do; e al­guns es­píri­tos mais apreen­sivos ex­cla­mavam, abanan­do a cabeça, co­mo n'uma pre­visão de de­sas­tre: 

  -Ora queira Deus que aque­la far­dança das canoas não desse em al­gu­ma des­graça! Tam­bém não sabi­am o que é que o casa­men­to es­per­ava, que nem sinal! O tem­po­ral es­ta­va por um triz! Se eles não abris­sem os ol­hos, tin­ham que passá-​la boa!...Quem sabia o que aqui­lo ia dar? Lo­go nesse dia... Po­bre do João Aguiar, coita­do!... 

  Mas out­ros, menos re­ceosos, afir­mavam vir­il­mente: 

  -Que não! Talvez não desse em na­da…A tro­voa­da era muito ca­paz de se des­man­char para longe co­mo tan­tas vezes se da­va... Tam­bém a gente que lá es­ta­va não era «ova»! E de­pois com o Rufi­no Bas­tos…Qual! Eles não largavam do por­to sem ver primeiro no que aqui­lo par­ava! Es­tavam bem se­guros, deix­as­sem lá!... 

  E ol­havam o mar onde as canoas, nas evoluções do úl­ti­mo lanço, gi­ravam com rapi­dez. Achavam-​se ali à es­pera para recol­her as re­des, porque naque­le dia es­ta­va tu­do acaba­do. Fo­ra uma as­neira an­dar a lancear com as águas as­sim paradas e cal­mas, pois não havi­am con­segui­do matar nem um peixe!... 

  Nesse mo­men­to, no al­to da en­cos­ta, cer­ca­da das pes­soas de casa, a Maria Bas­tos, de­bruça­da de no­vo ao para­peito do ter­reiro, n'uma aflição e quase a chorar, ex­ami­na­va o tem­po que es­cure­cia ca­da vez mais. Tin­ha o coração, ago­ra, pe­ja­do de imen­sos temores, ba­ten­do com pul­sação desmesura­da. Sen­tia mes­mo, por vezes, co­mo uma ân­sia, uma von­tade lou­ca de gri­tar. O ros­to, tão fres­co ho­ras antes, perdera o seu col­ori­do ha­bit­ual, mostran­do-​se pro­fun­da­mente abati­do e cava­do; e os ol­hos, com uma luz desvaira­da, voavam in­ces­san­te­mente, para além, so­bre as águas...


VI 


  Mal as canoas deixaram San­to An­tónio, puxan­do para o largo a fim de mon­tar o pon­tal, o cordão lívi­do do ven­to sul de­sen­hou-​se ao longe, nas va­gas. Por so­bre os pín­car­os aus­trais da Ser­ra do Mar o céu tornara-​se de um azul aper­ta­do e d'aço. Nu­vens ne­gras e es­pes­sas, de bo­jo car­rega­do, cor­ri­am para o norte n'um tur­bil­hão colos­sal. Fuzis ir­rompiam além, dan­tesca­mente, em ziguezagues rúti­los. O sol de­sa­pare­cera de to­do, sob os primeiros pane­ja­men­tos da bor­ras­ca. Uma luz ál­gi­da e sin­is­tra aprox­ima­va as per­spec­ti­vas, dan­do às coisas em vol­ta um as­pec­to fan­tás­ti­co. E so­bre a vas­ta su­per­fí­cie do mar, ain­da em cal­ma, pe­sa­va a solenidade au­gus­ta de um silên­cio formidáv­el, co­mo se de re­pente to­