da a Na­tureza fos­se en­trar para sem­pre na paci­fi­cação do Na­da! 

  As em­bar­cações sin­gravam, en­tre­tan­to, ser­ena­mente no meio da grande cal­ma. Pare­ci­am voar, ar­ran­cadas pos­san­te­mente pe­los pul­sos in­fatigáveis dos seus trip­ulantes. Aque­la em que vin­ha o noiva­do, um pouco so­bre­car­rega­da, deix­ava-​se dis­tan­ciar pela out­ra, que ia adi­ante, já quase a do­brar o pon­tal: muito meti­da de popa não po­dia de­sen­volver maior ve­loci­dade; e por is­so, os va­lentes re­madores ca­da vez se es­forçavam mais, im­pul­sio­nan­do-​a a gi­gan­tescas re­madas. À ré, so­bre o vas­to paneiro al­to, as moças, pos­to que ner­vosas e as­sus­tadas, mantin­ham-​se con­tu­do em silên­cio, to­das aconchegadas. N'uma das ex­trem­idades, a Ros­in­ha, que ficara sen­ta­da ao la­do do noi­vo, jun­to ao grupo onde es­tavam os padrin­hos e o pai, muito pál­ida e temerosa de al­gum de­sas­tre, lev­an­ta­va a cabeça, de vez em quan­do, aci­ma da bor­da, para ol­har o mar que ca­da vez ene­gre­cia mais. O João Aguiar, en­tão, com a sua imen­sa cal­ma de pescador, cri­ado a labu­tar dia e noite nas on­das, pe­ga­va-​lhe car­in­hosa­mente das mãos, dizen­do-​lhe: 

  -Que aqui­lo não era na­da, que não tivesse me­do, pois es­tavam a chegar...

  O pai, ao la­do, fala­va-​lhe tam­bém, an­iman­do-​a. E o pa­trão, um homem baixo e en­tron­ca­do, ain­da moço, a fi­siono­mia ri­ja e grossa de lobo do mar, de pé, ao leme, não ces­sa­va de in­ves­ti­gar o quad­rante do sul, onde cres­cia a tem­pes­tade. D'in­stante a in­stante, os seus lábios rudes de­scer­ravam-​se e o seu vozeirão rouco pas­sa­va: 

  -É aguen­tar, ra­pazes, que o pam­peiro não tar­da! 

  É pre­ciso mon­tar o pon­tal quan­to antes, senão temos tra­bal­hos!...

  Ao vi­brar destas palavras, co­mo sob o fer­ro de um aguil­hão, os braços re­mavam com maior pos­sança e a canoa lev­ava uma im­pul­são a mais. 

  Mas, de re­pente, um si­flar mon­stru­oso co­mo uma orques­tra de demónios num sabat in­fer­nal, ex­plodiu so­bre as águas, sub­le­vadas de súbito em va­gal­hões al­tos, que se en­tre­chocavam es­puman­do n'uma fúria in­elutáv­el. O oceano cer­rara-​se em torno. Os fuzis in­ten­si­fi­cavam-​se medonhamente, abrindo na at­mos­fera hi­erógli­fos de fo­go. Tro­vões con­sec­utivos rolavam no ar, aos es­toiros; e um pe­sa­do agua­ceiro vi­olen­ta­mente jor­rou do céu bra­vo.

  O pa­trão, ain­da de pé à popa, man­da­va largar uma das ve­las menores para fu­gir às va­gas colos­sais que se que­bravam de en­con­tro à canoa sacud­in­do-​a n'uma dança macabra. As ra­pari­gas, tomadas de pâni­co sob o tem­po­ral des­feito, soltavam gri­tos con­tín­uos, agar­radas umas às out­ras: «Nos­sa Sen­ho­ra!... Nos­sa Sen­ho­ra!...Que hor­ror!...» Os home­ns, com a cor­agem e o sangue-​frio dos pescadores, procu­ravam acalmá-​las com palavras an­imado­ras. A em­bar­cação, a bor­da in­cli­na­da, rola­va ver­tig­inosa­mente no torvelin­ho es­pumoso. De vez em quan­do, uma ou out­ra mare­ta maior gal­ga­va-​a, com a sua coroa de ren­das. E, ho­ra a ho­ra, o pam­peiro au­men­ta­va des­olado­ra­mente... 

  Tran­si­da de sus­to, a Ros­in­ha, as vestes amar­ro­tadas e en­sopadas da chu­va, agar­ra­va-​se ao noi­vo choran­do. Ele, forte e val­oroso no meio do ven­daval, en­laça­va-​a meiga­mente, enchen­do-​a de con­so­lações que a ser­enavam, por vezes, co­mo uma força sal­vado­ra. Era a primeira vez que a sen­tia to­da en­tregue a si, ven­ci­da e hu­milde co­mo uma corça; e por is­so tin­ha os ol­hos húmi­dos de emoção, es­tre­itan­do-​a nos braços, no meio da tem­pes­tade. 

  A canoa não par­ava um in­stante, n'uma sin­gradu­ra lou­ca, to­da ala­ga­