nte, ac­er­cou-​se, por en­tre os home­ns; e: saudan­do-​o, n'uma voz doce e tré­mu­la, cheia de emoção: 

  -En­tão, por aqui, de­pois de tan­tos tra­bal­hos, hein? Que des­graças por esse mar! E que grande lesta­da, nem o tem­po­ral de Março de que fala­va a mãe! Nun­ca se vi­ra uma coisa as­sim! Ali, no ar­ra­ial, fo­ra uma calami­dade, pare­cia que era o fim do mun­do! E co­mo ele es­capara, com tan­tos peri­gos, tan­tas aflições? Só por Deus, só por Nos­sa Sen­ho­ra dos Nave­gantes!...

  -É ver­dade, Mar­ica, graças ao Pai do Céu, es­capá­mos…

  E, n'um gesto da sua mão her­cúlea, de­sco­briu-​se, deixan­do ver a bela tes­ta tis­na­da, to­da au­re­ola­da de es­pes­sos caracóis cas­tan­hos.

  Em segui­da, ela can­tou-​lhe, n'um grande aba­lo ín­ti­mo, em fras­es en­trecor­tadas e soluçantes, os lin­dos ol­hos ne­gros ar­rasa­dos de pran­to, que o que a levara até ali fo­ra a pro­fun­da ân­sia em que es­ta­va por «al­gu­ma no­va» do Siqueira, que se fiz­era ao mar um dia antes de cair aque­le «in­fer­no de tem­po». De­cer­to, an­dara rolan­do tam­bém, aos tram­bol­hões, por ess­es mares de Deus... E quem sabe o que lhe teria suce­di­do so­bre as on­das em san­ha?...Des­de que aqui­lo desabara, não parara um in­stante, in­qui­eta, n'um de­ses­pero con­tín­uo, pas­san­do os dias e as noites jun­to ao oratório, rezan­do. E não sabia porquê, mas, «por den­tro», uma coisa lhe dizia que tin­ha havi­do um de­sas­tre, al­gu­ma des­graça, pois sen­tia co­mo que um "pe­so» ter­rív­el so­bre o coração...

  E de­satou a chorar al­to, per­di­da­mente, bati­da de uma ra­ja­da de dor.

  O Pe­dro, com a sua bon­dade de gi­gante, a sen­si­bil­idade in­com­paráv­el e san­ta de to­dos os maru­jos, cu­jas al­mas vivem per­pet­ua­mente car­regadas de amor, de ter­nu­ra, da nos­tal­gia sem fim do oceano, ficara lo­go com os seus grandes ol­hos azuis marea­dos de lá­gri­mas; e, ataran­ta­do, n'um en­leio, n'uma per­tur­bação, mal po­dia diz­er meiga­mente: 

  -Que, in­fe­liz­mente, não en­con­trara um só navio, uma úni­ca vela, du­rante a ter­rív­el vi­agem, mes­mo porque era im­pos­sív­el dis­tin­guir coisa al­gu­ma em meio a cer­ração. Mas que não se amo­fi­nasse, não perdesse a es­per­ança. O Siqueira era um mar­in­heiro às di­re­itas, con­hecia o mar co­mo as pal­mas das mãos. De­pois, o Es­padarte era navio de aguen­tar to­do o tem­po; aqui­lo era se­guro co­mo um roche­do; para ele não havia va­gal­hão. Cer­ta­mente a lesta­da fo­ra de tremer, mas não fal­tavam re­cur­sos para um bom mare­ante: havia a ca­pa, havia o en­cal­he em um costão de re­man­so e, se na­da d'is­so se pudesse al­cançar, era dar à popa e deixar-​se levar so­bre as águas, aos tran­cos…Não! Que ela não pen­sasse em des­graças! Era uma to­lice! O Siqueira, àquela ho­ra, talvez es­tivesse chegan­do ao Rio Grande...

  Sob es­tas palavras, que lhe caíam do­ce­mente na al­ma, co­mo um alívio, uma con­so­lação, a Maria Virgí­nia foi pouco a pouco ser­enan­do; mas lem­bran­do-​se de re­pente de que os pe­queni­nos, os fil­hos, tin­ham fi­ca­do soz­in­hos lá em cima com a mãe, coita­da, que vivia par­alíti­ca, a um can­to quase sem se poder mover, de­spediu-​se ime­di­ata­mente: 

  -Ora, há-​de ser o que Deus quis­er... E adeusin­ho, Pe­dro; até de­pois. Ol­ha, aparece lá em casa. As­sim que pud­eres, dá uma chegad­in­ha ao mor­ro. A mamã há-​de gostar de te ver... 

  E saiu cor­ren­do, n'um movi­men­to adoráv­el dos quadris cheios, da cin­ta es­tre­ita e do lin­do bus­to al­to onde o seu pescoço bem feito e o moreno ros­to es­cul­tur­al se er­guiam de­li­ciosa­mente no meio da luz ra­di­ante. 

  II

  Daí a quinze dias, pela man­hã, es­pal­ha­v