a-​se por to­do o ar­ra­ial dos In­gle­ses a lu­tu­osa notí­cia de que o Es­padarte tin­ha ido a pique, uma madru­ga­da, a vinte mil­has do cabo de San­ta Mar­ta, ten­do pere­ci­do nele o con­tramestre, o gageiro-​grande e o capitão Siqueira. Sou­bera do ca­so o fil­ho do Patesca, que viera da cidade onde es­tivera com os trip­ulantes que havi­am es­capa­do, e que de­cer­to chegari­am ali pela tarde, porque vin­ham por ter­ra, de sí­tio em sí­tio, em pro­cis­são com a gávea, a tirar es­mo­las para uma promes­sa à Sen­ho­ra dos Nave­gantes. Um de­les, o Manuel Figueira, nar­rara-​lhe, na véspera, co­mo se de­ra o naufrá­gio.

  O navio abri­ra água, um dia antes do sin­istro, com dois mares de través, que o ala­garam de popa, ao des­faz­er de uma ca­pa. Mas, com as bom­bas a tra­bal­har in­ces­san­te­mente, aguen­tara ain­da até à noite seguinte, em que a guarnição, já ex­aus­ta, largou tu­do por mão, e o brigue en­trou a se sen­tir mal so­bre as va­gas. Os mar­in­heiros começaram en­tão a tratar da sal­vação, en­sacan­do pro­visões, en­trouxan­do a roupa, ar­ran­jan­do os ob­jec­tos náu­ti­cos mais necessários -re­mos, ve­lame, ca­bos -safan­do ao mes­mo tem­po as tal­has do es­caler pe­queno e da lan­cha grande de car­ga, a fim de os poderem ar­ri­ar ao primeiro sinal. E as ho­ras cor­ri­am, sob o fragor clam­oroso do mar e a ne­gru­ra den­sa da noite in­sondáv­el... De re­pente, um mar­in­heiro, que de­scera ao ran­cho, de­parou com o porão meio d'água e, voltan­do, cor­rera à ré, a dar parte ao con­tramestre que es­ta­va ao leme, en­quan­to o capitão, a um bor­do, con­tra a bal­austra­da, com os ol­hos fis­ga­dos na noite e nas on­das, ace­na­va, a es­paços, com o braço gri­tan­do: orça! alivia! para evi­tar as mon­tan­has de mar em­bat­en­do em as­saltos gi­gantes... Nes­sa ocasião, já o navio ameaça­va soço­brar, em hor­ríveis bal­anços. Eles, ime­di­ata­mente, lançaram o es­caler e a lan­cha fo­ra das amu­radas, desta­can­do o gageiro-​grande para a popa, a pre­venir o capitão de que tu­do es­ta­va pron­to a largar. Porém, nis­so, um va­gal­hão ter­rív­el in­opinada­mente reben­tou so­bre o salto, avançan­do, car­regan­do tu­do n'um tur­bil­hão formi­dan­do…Ou­vi­ram-​se gri­tos... O brigue medonhamente en­ter­ra­va-​se, de al­heta, er­guen­do a proa balouçante... Eles, alu­ci­na­dos, n'um es­tran­ho pa­vor no meio do tu­mul­to in­fer­nal, cor­taram lo­go as tal­has, e, a to­da a força de re­mos, aguen­taram para o largo, à dis­tân­cia... Quan­do o dia alvorou, já em cal­ma, na­da mais se avis­tou so­bre o mar, além de­les e do dis­co er­mo e nos­tál­gi­co do hor­izonte ao longe...

  E a vi­va nar­ração do mar­in­heiro voa­va de bo­ca em bo­ca, elec­tri­ca­mente, des­per­tan­do en­ternec­imen­tos e lá­gri­mas pelas casas, os en­gen­hos e os ran­chos, e adquirindo, a ca­da no­va edição oral, cores e lin­has es­tran­has.

  A casa da Maria Virgí­nia já havi­am acu­di­do os par­entes, as ami­gas e to­da a viz­in­hança -e as por­tas e as janelas cer­radas, deix­avam es­capar des­olado­ra mente, ape­sar do be­lo sol da man­hã, um coro abafa­do e lúgubre de vozes soluçantes. 

  A po­bre ra­pari­ga re­ce­bera o grande golpe afli­ti­vo lo­go ao aman­hecer, quan­do, co­mo de cos­tume, de­pois da tem­pes­tade, posta­da ao paredão do ter­reiro, es­quadrin­ha­va, com um lon­go ol­har melancóli­co, a lin­ha clara do hor­izonte. Levara-​lhe a do­lorosa co­mu­ni­cação uma co­madre sua, a Jose­fa Du­tra, que pas­sara ain­da es­curo pela casa do Patesca, onde se de­tivera a tomar o «apara­do» e a des­cansar da lon­ga cam­in­ha­da que trazia, des­de o can­tar do ga­lo, lá do Rio Ver­mel­ho, onde es­tivera em bus­ca de remé­dios par