a o mari­do, caí­do com as sezões, havia dois meses. Des­de esse in­stante até àquela ho­ra, a Maria Virgí­nia se de­ba­tia em gri­tos, n'uma ân­sia e n'um de­sal­in­ho, na ag­itação do de­ses­pero, in­con­soláv­el, atur­di­da e per­di­da no fun­do do seu in­fortúnio. To­dos a rodeavam afec­tu­osa­mente, procu­ran­do acalmá-​la com palavras meigas e en­terneci­das, que en­volvi­am uma imen­sa con­so­lação de car­in­hos -palavras de­li­ciosas, palavras san­tas, que são, na des­graça, co­mo um vas­to man­to aconchegante de plumas e um suave, in­com­paráv­el bál­samo ben­di­to!...

  A casa in­teira pare­cia tam­bém en­vol­ta na ra­ja­da sin­is­tra, no meio da des­olação: de to­dos os la­dos, de to­dos os can­tos, er­guia-​se, fu­ner­ari­amente, na des­or­dem das coisas, co­mo uma lev­ada tu­mul­tu­osa de sofri­men­tos, que se de­spren­dia do choro in­con­sciente das cri­anc­in­has ór­fãs e do soluçar rouque­jante da po­bre avó par­alíti­ca. Até na co­zin­ha as vel­has pre­tas da casa fazi­am um coro vi­vo de pran­to. E a imen­sa aflição deste lar hu­milde ecoa­va lu­tu­osa­mente por aque­las cer­ca­nias onde, co­mo em to­dos os sí­tios, a vi­da corre do­ce­mente en­laça­da, na sol­idariedade fra­ter­nal de uma mes­ma família, com­par­til­han­do igual­mente as ale­grias e as pri­vações.

  Mas o dia en­cam­in­ha­va-​se para a tarde e a luz des­bo­ta­va lenta­mente n'um doura­do es­vaí­do. Pe­los mor­ros, dis­tin­guiam-​se os grandes lençóis col­ori­dos das roças, onde pre­domi­navam in­ten­sa­mente o verde-​ne­gro da man­dio­ca e o louro seco dos mil­hos. E na serenidade do ar er­guia-​se, por vezes, um va­go tré­mu­lo amoroso de campesinas canti­gas. Pela cos­ta, canoas de rede, na faina in­ten­sa da pescaria, iam traçan­do in­ces­san­te­mente, so­bre a lousa verde do mar em cal­ma, lon­gos hi­erógli­fos de giz. Pe­que­nas ve­las ao longe abri­am melan­col­ica­mente o triân­gu­lo claro e vo­ga­do r da sua asa alígera. E no hor­izonte além, a saudosa nebli­na de péro­la das águas longín­quas...

  De re­pente, vozes fres­cas de ra­pazes es­ta­laram lá em baixo, no cam­in­ho: 

  -Ol­ha uma vela de navio! Ol­ha uma vela de navio! É a gente do Es­padarte... Aí vem!...

  E lo­go a notí­cia de que os náufra­gos tin­ham chega­do es­pal­hou-​se por to­do o sí­tio dos In­gle­ses. 

  Efec­ti­va­mente, na en­cruzil­ha­da da pra­ia, de onde par­tia um ra­mal de estra­da bran­co e arenoso es­ten­den­do-​se pe­lo litoral até à Pon­ta das Canas e à Ca­choeiras, um grupo triste de home­ns, descalços, em camisa, o boné sob o braço, as calças ar­regaçadas, aper­tadas na cin­ta es­car­late dos maru­jos, avança­va, con­duzin­do à mão, pelas car­regadeiras, o pano grande de uma ver­ga. Mol­hos de rosas e pal­mas, deita­dos de­cer­to por mãos piedosas de ro­ceiras trigueiras - mães, fil­has, noivas e ir­mãs -na pas­sagem pe­los sí­tios, per­fumavam, en­feitavam rison­hamente aque­la vel­ha lona, que fo­ra out­ro­ra, no al­to das mas­treações, tão ama­da do sol e dos ven­tos do oceano.

  O présti­to cam­in­ha­va can­tan­do. Era uma dessas canções em­bal­adas e monó­tonas, de uma cadên­cia acre da on­da em tor­men­ta, im­plo­rati­vas, con­vul­sas, an­siosas, de uma nos­tal­gia sem ter­mo. Ca­da es­trofe dizia, primeiro, o ru­gir dos ven­tos, o es­pumar dos va­gal­hões em fúria, o de­spedaçar dos lenhos; de­pois, os gri­tos, as pra­gas duras, blas­fe­mas, os fun­dos de­ses­per­os da mar­in­hagem im­po­tente, em lu­ta bru­tal com os el­emen­tos. Mas o es­tri­bil­ho rit­ma­do e fre­quente, tin­ha uma man­sid­ão su­pli­cante, o an­siar res­ig­na­do de ín­ti­mos sofri­men­tos, a doçu­ra suavís­si­ma de uma prece pla