n­gente: 

  Sen­ho­ra dos Nave­gantes,

  Am­parai-​nos lá dos céus:

  Que por to­dos os quad­rantes

  Acalmem-​se os es­car­céus.

  De vez em quan­do, em frente às casas, a vela par­ava, e um mar­in­heiro se desta­ca­va, abor­dan­do as janelas ou as por­tas, de bar­rete es­ten­di­do, es­molan­do. E as moedas ne­gras de co­bre e os níqueis ra­di­antes, sur­giam de to­da a parte, cain­do de mãos fem­ini­nas e bran­cas, n'um rápi­do gesto espon­tâ­neo. 

  Uma aglom­er­ação de ra­pazes e home­ns cer­ca­va lo­go a com­pan­hia, e os con­heci­dos e ami­gos a in­quiri­am can­di­da­mente, pedin­do notí­cias, por­menores do sin­istro. 

  As famílias dos náufra­gos que moravam dis­tante, lá para a Lagoin­ha, de­sci­am em di­recção à pra­ia, n'um alvoroço, para abraçar os pais, os mari­dos e os fil­hos. Havia por is­so, em to­do o ar­ra­ial, um movi­men­to de ro­maria. E quan­do al­gum dos mar­in­heiros avis­ta­va os seus entes queri­dos, o seu lar, o bem maior da sua vi­da, de­spren­dia-​se, por in­stantes, do lu­tu­oso corte­jo, e er­am en­tão abraços ar­dentes, choros de emoção e de ale­gria, nas porteiras, nos ter­reiros, sob as ra­ma­gens verdes dos cam­in­hos... 

  Mas lo­go a vela prosseguia, naque­la pere­gri­nação do­lorosa. 

  Ao chegar à ven­da do Lemos, uma mul­ti­dão de aju­dantes, ca­ma­radas das re­des e al­guns trip­ulantes do An­dor­in­ha, que ain­da per­mane­cia no por­to car­regan­do – cor­reram ao en­con­tro dos náufra­gos, rui­dosa­mente, n'um jú­bi­lo: 

  -Oh An­tónio! oh Figueira! oh Con­stân­cio!. .. En­tão por aqui, de­pois de tan­tos peri­gos?...Ora sem­pre Deus era grande e tin­ha com­paixão dos in­fe­lizes!...

  -É ver­dade, gente. Mas lá fi­cou o nos­so capitão, lá ficaram o Samuel e o Justi­no, coitad­in­hos! Quem diria que tornaríamos sem eles! O que era a vi­da, o que era o des­ti­no!

  E dos ol­hos de to­dos aque­les marí­ti­mos, ra­ia­dos de sangue pela re­fracção so­lar do oceano, nos tombadil­hos, as lá­gri­mas cor­ri­am, duas a duas, si­len­ciosa­mente...

  Lá em cima, no mor­ro, a Maria Virgí­nia, a es­sa ho­ra mais cal­ma, mais res­ig­na­da, naque­la quase con­so­lação de poder ver ao menos a vela do navio do mari­do, que­ria por força de­scer a baixo, ao cam­in­ho. Mas os par­entes e as ami­gas protes­tavam, op­un­ham-​se: 

  -Que não! Que não! Pois se a vela ia pas­sar por ali, porque tin­ha de ficar aque­la noite na er­mid­in­ha da Sen­ho­ra dos Nave­gantes! Não! Que tivesse paciên­cia, es­perasse um in­stante. Ela viria... 

  Com efeito, o pano do brigue ia ser de­posi­ta­do ali até out­ro dia. O Figueira já falara ao sac­ristão, e este apres­sara-​se lo­go a subir à capelin­ha, cu­ja por­ta abria-​se ago­ra lá no al­to da mon­tan­ha, dom­inan­do as pra­ias, as il­has, to­do o oceano, co­mo nas man­hãs claras de mis­sa... 

  Mas o sol rola­va já no hor­izonte, n'uma bar­ra sulfe­ri­na. A pla­nu­ra imen­sa das águas re­sp­lan­de­cia a oeste, mar­avil­hosa­mente, co­mo um es­tran­ho tabla­do de pe­drarias. Canoas ao longe cor­ri­am, com ve­las tin­tas a zarcão, sob a luz fugidia, evo­can­do feeri­ca­mente o es­quis­so lu­mi­noso de uma re­mo­ta mar­in­ha fení­cia, sin­gran­do, n'um poente ver­mel­ho, o ce­tim do mar de Tiro. E con­tra a cos­ta arenosa e límp­ida fecha­da a um la­do pelas rochas al­tas do Ra­pa, cober­tas ago­ra de uma fas­cu­ração san­guínea de mi­ca, o cair lento e melancóli­co de uma poeira de nan­quin, onde se dis­tin­guiam, n'uma eter­al ag­onia, os primeiros lilases e lírios das ave-​marias...

  En­tão os náufra­gos apres­saram-​se e, ar­ru­ma­dos à vela, de onde as rosas e pal­mas pen­di­am, já mur­chas e tristes, co­mo so­bre um pano de es­qu