ife, tomaram o tor­tu­oso e emp­ina­do cam­in­ho que lev­ava à er­mi­da. E, de no­vo, repeti­da­mente, o es­tri­bil­ho sonoro da canção marí­ti­ma ecoou pe­lo ar, man­so, sú­plice, plan­gen­tís­si­mo: 

  Sen­ho­ra dos Nave­gantes, 

  Am­parai-​nos lá dos céus: 

  Que por to­dos os quad­rantes 

  Acalmem-​se os es­car­céus. 

  Em frente ao ter­reiro da Maria Virgí­nia o présti­to es­ta­cou. Uma aglom­er­ação de pes­soas toma­va ali a estra­da, n'uma at­itude com­pungi­da. E lo­go, da casa to­da aber­ta e em som­bra, rompeu uma orques­tração clam­orosa de choros e gri­tos. Den­tro, a po­bre ra­pari­ga de­ba­tia-​se, n'uma angús­tia sem nome, em meio aos braços das ami­gas, que a con­duzi­am car­in­hosa­mente para uma das janelas, procu­ran­do im­pe­di-​la de sair ao cam­in­ho, dizen­do-​lhe do­ce­mente: 

  -Ol­ha daqui! Ol­ha daqui! 

  Porém ela, de­sati­na­da, con­vul­sa, n'um ner­vo­sis­mo, re­torquia-​lh­es: 

  -Não! Não! Deix­em-​me sair! E com a ideia sem­pre fixa no mari­do: -Quero ir bei­jar ao menos a vela que lhe es­cutou o úl­ti­mo sus­piro... 

  E, de­spren­den­do-​se de re­pente, atirou-​se para a rua, co­mo uma lou­ca, por en­tre a mul­ti­dão es­tar­reci­da.

  Foi en­tão uma ce­na co­movente, tristís­si­ma. To­dos, em vol­ta, tin­ham os ol­hos ra­sos d'água, as pes­soas do po­vo co­mo aque­les vel­hos marí­ti­mos. 

  E a Maria Virgí­nia, de joel­hos, abraça­da à vela, to­da ban­ha­da em pran­to e ag­ita­da por soluços que a sacu­di­am in­ter­mi­ten­te­mente, bei­ja­va a vel­ha lona náufra­ga, bei­ja­va-​a, co­mo n'uma ar­dente e ex­traordinária con­sagração div­ina. A sua voz, a es­paços, de­bil­mente vi­bra­va, tré­mu­la, en­trecor­ta­da, aflitís­si­ma, no meio do pe­sa­do silên­cio do céu ves­per­ti­no: 

  -Ai! que dor! Ai! que dor!...Virgem San­tís­si­ma!...

  E co­mo ela se de­lon­ga­va son­am­bu­la­mente nes­sa gen­uflexão de martírio, o ros­to des­fig­ura­do, muito bran­co, co­mo quem vai cair n'uma sín­cope, os par­entes acud­iram, ar­ran­can­do-​a piedosa­mente dali. 

  A vela, sem­pre acom­pan­ha­da de po­vo, pôs-​se out­ra vez a cam­in­ho, em­bal­ada pe­lo rit­mo sonoro da canção, cu­jo agro es­tri­bil­ho ar­gu­men­ta­va ago­ra de dolên­cia monó­tona. Nesse in­stante, o crepús­cu­lo cer­rara-​se de to­do, amor­tal­han­do os longes, as mon­tan­has e as águas, com os seus grandes véus mor­tuários de cin­za... 

  Rio, 1893.

  O VEL­HO SUMARES

  (Ao almi­rante J. Justi­no de Proença) 

  O Gal­go, toma­da a úl­ti­ma bar­ca­da de ne­gros, fiz­era-​se de vela. Bor­de­ja­va ao ter­ral da madru­ga­da, na pe­que­na en­sea­da de Am­briz, os faróis apa­ga­dos para es­capar aos cruzeiros in­gle­ses e gan­har o mar al­to, onde ninguém o ven­cia. As primeiras bar­ras do dia começavam a clarear para os la­dos de ter­ra, e o navio, ain­da en­tre pon­tas, não con­seguia faz­er-​se ao largo. No tombadil­ho, passe­an­do de bom­bor­do a boreste, o vel­ho Sumares prague­ja­va, porque o ven­to ia es­casse­an­do. O brigue catur­ra­va lenta­mente na va­ga e ele ol­ha­va pre­ocu­pa­do o hor­izonte a oeste, son­dan­do-​o com um lon­go ol­har in­qui­eto, através da ob­scuri­dade... 

  II

  Das trin­ta e seis perigosas vi­agens à Cos­ta, nen­hu­ma lhe cus­tara co­mo aque­la. À saí­da do por­to, pe­gara lo­go uma lesta­da que ar­rebatara um mas­taréu, inu­ti­lizan­do-​lhe um homem e fazen­do-​o ro­lar, du­rante oito dias, aos tram­bol­hões, à ca­pa. De­pois, fo­ra aque­le «raio do di­abo» do Con­test perseguin­do-​o, na úl­ti­ma se­mana, com uma tenaci­dade formidáv­el, até à an­tevéspera, em que con­seguira es­capar, graças à in­t