en­sa es­curidão da noite, na baía de Bi­afra. Ain­da sen­tia subir-​lhe o sangue à cabeça, n'uma on­da de rai­va, à lem­brança daque­les sete dias per­di­dos, de con­tin­uas e tra­bal­hosas manobras, ora es­con­den­do-​se nos re­can­tos da cos­ta, ora su­min­do-​se nos va­gal­hões do al­to-​mar. E, to­das as man­hãs, sem­pre à vista, as ve­las perseguido­ras do maldito cruzeiro! Car­regara, du­rante dois dias e duas noites, n'um so­bres­salto, sem ar­ri­ar fer­ros, só com um an­corote, pron­to a sus­pender ao primeiro sinal. E, pela primeira vez, sen­tia-​se fati­ga­do dos seus se­ten­ta e seis anos de mar.

  Porque o vel­ho Sumares nascera no oceano, na al­tura das Canárias, na câ­mara de uma galera das Ín­dias, uma ale­gre man­hã atlân­ti­ca de mar man­so e céu claro. Seu pai, o capitão de bor­do, era um famoso náu­ti­co, de­scen­dente de uma anti­ga família de marí­ti­mos do Al­garve. Chama­va-​se Manuel Sumares, mas era con­heci­do, en­tre os capitães por­tugue­ses do seu tem­po, pe­lo Manuel Mas­tro, em vir­tude do seu porte teso e agi­gan­ta­do, do ex­cep­cional sangue-​frio no peri­go, da grande força mus­cu­lar. Nun­ca tremera di­ante da tor­men­ta, nem sen­ti­ra a fadi­ga das vi­agens. Pi­lo­to muito moço, ape­nas tirara a car­ta, começou a co­man­dar. A mul­her, que o acom­pan­ha­va sem­pre pe­los mares, uma ro­bus­ta fil­ha de pescadores da Póvoa, more­na e plan­tur­osa, com uns ol­hos ne­gros es­plên­di­dos, fo­ra cri­ada nas pra­ias, nos ven­tos sal­itrosos do oceano e ao ca­dente reben­tar das va­gas. Tivera seis fil­hos home­ns, dos quais os três mais vel­hos, ain­da muito ten­ros, começaram a labu­tar so­bre as águas. Casara aos catorze anos e saíra lo­go a vi­ajar. Muito forte, muito cora­josa e saudáv­el, nas con­stantes vi­agens, vivia sem­pre em cima, no tombadil­ho, ao la­do do mari­do, acom­pan­han­do o movi­men­to das manobras com in­trepi­dez más­cu­la. Is­to fazia com que os mar­in­heiros, nas palestras ín­ti­mas do ran­cho, a tratassem sem­pre pela Vel­ha Náu­ti­ca.

  O Sumares her­dara do pai a gi­gan­tesca es­tatu­ra, a cal­ma ex­traordinária e a pu­jança vir­il de mús­cu­los, coroadas por uma in­teligên­cia nat­ural e um in­com­paráv­el es­píri­to de aven­tu­ra. Da mãe, re­ce­bera a beleza cinze­la­da do bus­to e os grandes ol­hos nan­quina­dos, im­pri­min­do uma ra­di­ação e um en­can­to à larga fi­siono­mia ar­iana, emoldu­ra­da em bela bar­ba bas­ta e n'uma es­pes­sa ca­beleira on­dea­da. Aos quinze anos, to­do im­berbe, era lin­do, forte, es­cul­tur­al, lem­bran­do o fil­ho de um pescador do Pireu, ou um anti­go grumete dos Arg­onau­tas. Bem no­vo ain­da, com pouco mais de dez anos, en­trara a servir, co­mo moço de con­vés, sob as or­dens do pai, rev­elando des­de lo­go ex­traordinária vo­cação para a vi­da do mar. As­sim fiz­era nu­merosís­si­mas vi­agens. Foi em San­ta Cata­ri­na, onde naufra­gara n'uma sumaca por­tugue­sa que ia para o Pra­ta, que ob­tivera o seu primeiro co­man­do, n'um pal­habote da pe­que­na cab­otagem. Tin­ha en­tão vinte anos. As vi­agens er­am para o Rio Grande do Sul, e, em uma de­las, o Sumares re­al­iza­va in­es­per­ada­mente a sua primeira aven­tu­ra, sal­van­do, com risco de vi­da, sob um pam­peiro forte, to­da a trip­ulação de uma bar­ca in­gle­sa, naufra­ga­da na bar­ra. Valeu-​lhe es­ta «áfrica» uma medal­ha do gov­er­no britâni­co, acom­pan­ha­da de um riquís­si­mo binócu­lo de mas­ter, com uma in­scrição e o seu nome nos cilin­dros doura­dos, onde se fala­va da rain­ha Vitória e do Almi­ran­ta­do.

  Este fac­to e out­ros, nu­merosa­mente ocor­ri­dos em to­da a cos­ta du­rante aque­le In­ver­no de tremen­das bor­ras­cas, de­ram-​lhe, des­de lo­go, nas duas pr