ovín­cias do Sul, uma grande no­to­riedade. Só se fala­va en­tão no capitão Sumares. De­pois, nos navios de lon­go cur­so, que iam con­tin­ua­mente às An­til­has e à Améri­ca Cen­tral, para onde se en­car­reirara, fez, com o seu imen­so prestí­gio de mar­in­heiro ge­nial, prodi­giosas sal­vações no mar. E, en­tre to­das as vi­agens ali, era céle­bre a temerosa trav­es­sia sob o es­tourar dos ci­clones no gol­fo do Méx­ico, onde sessen­ta navios soço­braram, só es­capan­do ele n'um vel­ho pat­acho. 

  Mas a for­mação da sua es­tran­ha bi­ografia, quase in­verosímil e lendária, a que a imag­inação pop­ular de­ra cores fan­tás­ti­cas, so­bre­nat­urais, teve lu­gar, com mais pub­li­ci­dade e ruí­do, quan­do capitão dos navios da Cos­ta, no trá­fi­co do es­cra­vo onde ocor­reram in­au­di­tos ca­sos. Aí en­rique­cera, lo­go no começo, a dois ar­madores do Dester­ro, com mag­ní­fi­cas vi­agens dan­do re­sul­ta­dos con­sid­eráveis. Co­mo casara, porém, na família Cal­ado, uma anti­ga fir­ma com­er­cial, tam­bém ar­mado­ra e ago­ra um pouco atrasa­da pelas con­tínuas per­das no mar, nos úl­ti­mos anos -pas­sou a co­man­dar um dos navios da casa.

  Es­col­hera, en­tre os qua­tro restantes, o Gal­go, que fiz­era ape­nas uma vi­agem a África, e es­sa mes­ma com tan­ta in­fe­li­ci­dade que os In­gle­ses o havi­am apri­sion­ado, já na vol­ta, de­pois de oito dias de sin­gradu­ra larga, levan­do-​o com car­rega­men­to e guarnição para San­ta He­le­na, onde o aban­donaram. O de­sas­tre de­ra-​se porque o capitão dessa época, ater­ror­iza­do des­de um tem­po­ral que apan­hara pe­lo equinó­cio, e que obri­gara a cor­rer em ár­vore se­ca, du­rante um dia, aos boléus, so­bre os va­gal­hões ira­dos tivera me­do de puxar pe­lo bar­co, por causa do mar e do sul ter­rív­el que reina­va, temen­do-​lhe o cas­co es­guio, o enorme pano, a guin­da desmesura­da. 

  O navio era no­vo, de um mod­elo lin­do, uma con­strução rara. E o no­vo capitão, ao sair a bar­ra, pela primeira vez, no Gal­go, puxan­do to­do, às bor­dadas, con­tra o norte duro, re­con­heceu lo­go, pela ex­ce­lente mar­cha, que aqui­lo «era uma es­pa­da». Ao bo­tar-​se a bar­quin­ha, ver­ifi­ca­va-​se sem­pre oito a dez mil­has fol­gadas - à popa, à boli­na, a um largo. Foi nes­sa vi­agem que o Sumares começou a série in­édi­ta e lou­ca de aven­turas que tan­to o cel­ebraram en­tre os capitães costeiros, e das quais se saiu sem­pre vi­to­rioso até àquela bem cer­ca­da ago­ra de maus pressá­gios... 

  III

  Mas clar­idades róseas começaram a alas­trar o céu - e o Sol rompeu, n'um pas­moso es­plen­dor trop­ical, fazen­do destacar, muito vi­vas, as areias bran­cas da cos­ta, as flo­restas à beira d'água e, ao fun­do, as mon­tan­has cinzen­tas da Ser­ra Leoa, su­min­do-​se além, n'um es­vaec­imen­to nos­tál­gi­co. A luz de ouro jor­rante co­bria de in­úmeras pla­cas ru­tilosas a vastís­si­ma am­plidão do mar. A oeste, o cur­vo e imen­so hor­izonte mostra­va-​se ago­ra, de­ser­to e longín­quo n'uma ex­ten­sa lin­ha azu­la­da.

  De re­pente, das águas de Ben­im, do­bran­do o cabo de Pal­mas, ao noroeste, ve­las bran­que­jaram. Era uma em­bar­cação de al­to bor­do. 

  O vel­ho Sumares, à amu­ra­da, de binócu­lo em pun­ho, ob­ser­va­va aten­ta­mente o navio: proa­va naque­le ru­mo, a grande dis­tân­cia, por is­so não po­dia dis­tin­guir bem. Supôs, a princí­pio, uma galera por­tugue­sa, de tor­na-​vi­agem às pos­sessões na cos­ta. Mas, ao vi­rar de bor­do, re­con­heceu que era um brigue, trazen­do à mezena a ban­deira in­gle­sa ar­vo­ra­da! 

  -Ah! Com um mil­hão de raios, o Con­test!... 

  E man­dou lo­go vi­rar para o sul.

  IV 

  To­do aque­le dia segui