u-​o, ameaçado­ra­mente, co­mo na úl­ti­ma se­mana, a ter­rív­el proa, que só de­sa­pare­ceu ao cer­rar da noite, mas cu­jos faróis ace­sos bril­havam, através da tre­va, espre­itan­do-​o sin­is­tra­mente, co­mo os ol­hos de um fe­li­no fan­tás­ti­co. Pela madru­ga­da o ven­to es­casseou, e out­ra vez avis­taram, à doce luz doura­da do Lev­ante, quil­han­do-​lh­es a es­teira bran­ca, so­bre as águas de sable, o temeroso cas­co. A maldita cal­maria, tão con­heci­da naque­las par­agens, começa­va. E o cruzeiro vin­ha-​lh­es na al­heta, já muito próx­imo, a menos de três mil­has es­cas­sas. 

  O vel­ho Sumares re­cea­va ago­ra o al­cance da ar­til­haria que mon­ta­va o navio, mas guar­da­va o sangue-​frio ha­bit­ual, ob­ser­van­do o menor movi­men­to do in­imi­go. O pi­lo­to, no ar­co de gávea, procu­ra­va devas­sar o con­vés in­glês com o seu lon­go ol­har. E a guarnição do Gal­go, de cima do caste­lo, mi­ra­va, o so­brol­ho car­rega­do, a aprox­imação do brigue. 

  Era colos­sal o va­so britâni­co, pe­lo seu com­pri­men­to, um enorme pon­tal, a al­terosa mas­treação, sendo que só as gáveas e os joanetes po­di­am dar para to­do o pano do Gal­go!

  E al­guns dos mar­in­heiros, rudes vel­hos en­caneci­dos no trá­fi­co, que tin­ham si­do apri­sion­ados de uma fei­ta por um dos cruzeiros, lem­bravam-​se ain­da, com ter­ror, ol­han­do o mon­stru­oso navio, dos maus tratos e da cru­el desumanidade da maru­ja in­gle­sa. Os que ofer­eci­am re­sistên­cia nas abor­da­gens ou davam com­bate, er­am iça­dos, de­pois, no lais das ver­gas, ou pas­sa­dos de mer­gul­ho por de­baixo do cas­co ou cal­abro­ta­dos…

  -Um in­fer­no! con­cluía o vel­ho gageiro Domin­gos, o mais idoso da com­pan­ha; só fal­ta­va matar-​nos, trin­car-​nos os bofes... Ex­co­munga­dos! E ali es­tavam a segui-​los! Só se aque­le bar­co, o Gal­go, já es­tivesse com cra­ca, senão os havia de en­si­nar, aos pat­ifes, deix­as­se com quem! Com o vel­ho Sumares... Ora, os di­abos!...

  Os out­ros, que o ou­vi­am, ex­cla­mavam en­tu­si­as­ti­ca­mente: 

  -Quais quê! Ao Gal­go nem uma bala o pe­ga­va! Aqui­lo era um corisco p'ra an­dar! Dessem-​lhe ven­to, que era o que ele que­ria! E que fos­sem bu­giar os corsários! 

  E fix­avam o Con­test, franzin­do o beiço, com pro­fun­do des­dém, co­mo mar­in­heiros que con­hecem o seu bar­co. 

  O João Cata­ri­na, que subia do ran­cho para ren­der o homem do leme, e que ou­vi­ra o fim da con­ver­sa, gri­tou-​lh­es tam­bém, voltan­do-​se, com uma das mãos à cin­ta, endi­re­itan­do a fa­ca: 

  -O quê, ra­pazes? o «car­roça»? Não da­va p'ra na­da…Pois se aqui­lo era pi­or que uma bóia!...

  Mas, à ré, o vel­ho Sumares não tira­va o binócu­lo do bar­co. Pare­cia-​lhe, in­ex­pli­cavel­mente, que o out­ro se aprox­ima­va mais, ape­sar da cal­maria. E in­ti­ma­mente pen­sa­va: 

  -Talvez efeito das cor­rentes, das águas... 

  Começa­va a es­tran­har, porém, o silên­cio das ba­te­rias já em al­cance quan­do, de re­pente, o pi­lo­to gri­tou para baixo: 

  -Fazem sinal para atrav­es­sar!...Fazem sinal para atrav­es­sar!...

  Em segui­da, um es­tampi­do grosso e rouco de can­hão rolou so­bre as águas, que o sol a pino mal­ha­va. 

  -Ah! os mis­eráveis ameaçam-​nos! -ros­nou o vel­ho Sumares, ven­do uma nu­vem de al­go­dão que se adel­gaça­va lenta­mente, co­brindo o brigue à meia-​nau. 

  Os mar­in­heiros, pelas amu­radas, à proa, berravam, n'uma in­dig­nação: 

  -Ol­ha os es­tu­pores! Vão balear-​nos! Vão balear-​nos! 

  E efec­ti­va­mente, daí a in­stantes, os tiros repeti­am-​se, à bala. 

  O cruzeiro, to­do em pano, en­tran­do ain­da para vante, es­ta­va já à dis­tân­cia