Title: O Canto da Sereia
Author: Júlio Dinis
CreationDate: Tue Jul 21 11:38:00 BST 2009
ModificationDate: Wed Apr 01 07:40:00 GMT 1970
Genre: 
Description: 
  O Can­to da Sereia

  Júlio Di­nis

  O Can­to da Sereia foi ex­traí­do do livro Serões da Provín­cia.

  © 1997, Par­que EX­PO 98. S.A.

  IS­BN 972-8396-01-5

  Lis­boa, Agos­to de 1997

  Ver­são para dis­pos­itivos móveis: 

  2009, In­sti­tu­to Camões, I.P.

  ***

  O CAN­TO DA SEREIA

  -Metade mul­her e metade peixe! Is­so pode lá ser! Es­tá a caçoar com a gente o ti' Cabaça. Ora! 

  -A caçoar! Na min­ha idade não se caçoa, ra­pazes. 

  É ver­dade o que lh­es di­go. As­sim me Deus salve, co­mo, mui­ta vez o ou­vi con­tar a meu pai. Sen­hor o chame lá! Dizia ele que de seu avô o sabia. Já se vê que is­to vem dos anti­gos. 

  O diál­ogo, cu­jas úl­ti­mas palavras acabá­mos de es­cr­ev­er, travara-​se en­tre um grupo de pescadores da cos­ta do Fu­radouro que, deita­dos uns, out­ros sen­ta­dos e em vari­adas posições na areia da pra­ia, procu­ravam, fu­man­do e con­ver­san­do, aproveitar as ho­ras de força­da ociosi­dade a que o es­ta­do do mar os con­strangera naque­le dia. 

  Era por uma tarde dos fins de Maio. 

  A abóba­da ce­leste tin­gi­ra-​se dessa sin­is­tra cor plúm­bea, prenún­cio de tem­pes­tades imi­nentes e, por um con­heci­do efeito de óp­ti­ca, pare­cia abater-​se ca­da vez mais so­bre aque­la ex­ten­sa planí­cie arenosa, lim­ita­da ao oci­dente pe­lo mar e ao ori­ente pela lon­ga cin­tu­ra de pin­heirais que pro­tege, con­tra a in­vasão de as­so­ladores tur­bil­hões de areia, a pop­ulosa vi­la de Ovar. 

  As va­gas in­qui­etas e ir­ri­tadas sob a in­fluên­cia do poderoso agente eléc­tri­co que se con­den­sa­va nos ares, e re­flectin­do à sua su­per­fí­cie en­cres­pa­da a cor es­cu­ra e quase metáli­ca do céu, au­men­tavam o as­pec­to som­brio e car­rega­do da per­spec­ti­va. 

  Res­pi­ra­va-​se a cus­to uma at­mos­fera abrasea­da e su­fo­cado­ra e, de quan­do em quan­do, lev­an­ta­va-​se do sul um ven­to leve, mas quente e ári­do, co­mo se viera de atrav­es­sar uma vas­ta região de­vo­ra­da pelas chamas de in­cên­dio de­stru­idor. 

  O es­curo dos pal­heiros, ain­da in­abita­dos naque­la época do ano, e o das pe­que­nas reco­le­tas, onde vivem mis­er­av­el­mente as mais po­bres famílias de pescadores, longe de im­prim­irem aparên­cias de vi­da e an­imação à feição sev­era e melancóli­ca do quadro, antes pare­cia con­cor­rerem para lha ex­ager­ar, talvez recor­dan­do épocas de maior movi­men­to na pra­ia e fazen­do, pe­lo con­traste, sen­tir o seu ac­tu­al aban­dono.

  As com­pan­has não tra­bal­havam naque­la tarde. Os ar­rais, es­tu­dan­do com os ol­hos ex­per­imen­ta­dos a cor do céu, o ru­mo do ven­to, a for­ma das nu­vens e a on­du­lação par­tic­ular das va­gas, pru­den­te­mente man­daram recol­her as lan­chas à pra­ia. Es­ta não ap­re­sen­ta­va, por­tan­to, aque­le la­bo­rioso tu­mul­to e con­fusa ag­itação que acom­pan­ha sem­pre o tra­bal­ho das pescarias. 

  Ape­nas al­gu­mas cri­anças de per­nas nuas, crestadas pe­lo sol e pelas brisas marí­ti­mas, lu­tavam umas com as out­ras na areia ou brin­cavam com as on­das, ora cor­ren­do para elas, ora fug­in­do-​lh­es, mas nem sem­pre com a presteza necessária para no movi­men­to do fluxo não serem al­cançadas, acon­tec­imen­to que era sem­pre sauda­do com es­trepi­tosas gar­gal­hadas e apu­pos. Dos pescadores, uns havi­am ido sa­bore­ar à vi­la o tem­po de tréguas que lh­es con­ced­era o mar, out­ros re­focilavam-​se na taber­na da tia Sal­ga­da, a mais afama­da da cos­ta do Fu­radouro, com lon­gas e pre­ciosas libações do vin­ho da Bair­ra­da que de­safi