ava com­petên­cias com os mais acred­ita­dos que se ven­di­am na vi­la; fi­nal­mente al­guns mais sóbrios, dis­per­sos em gru­pos na pra­ia, con­ver­savam tran­quil­amente, quan­do não dormi­am ao som monótono das on­das e na con­vida­ti­va ca­ma de areia sol­ta, que tão con­for­tavel­mente se lh­es amol­da­va às for­mas do cor­po. 

  O grupo, donde havi­am par­tido as pou­cas palavras que pude­mos ain­da es­cu­tar, era um daque­les em que mais in­ten­sa­mente pare­ci­am ab­sorvi­das as atenções pe­lo as­sun­to que se dis­cu­tia. Na posição e no gesto de quase to­dos os que o for­mavam, rev­ela­va-​se uma ávi­da cu­riosi­dade, e o vel­ho Cabaça, que tin­ha a palavra naque­la ocasião, as­sumi­ra cer­to ar de gravi­dade que não con­cor­ria pouco para o efeito pro­duzi­do.

  Era o tio Cabaça uma bela figu­ra de vel­ho, alen­ta­do e mus­cu­loso e de uma ro­bustez de or­ga­ni­za­ção que rea­gia ain­da, vi­to­riosa­mente, con­tra o pe­so dos anos. 

  Era ti­do em grande con­ta na com­pan­ha, não só pe­lo muito que en­ten­dia de coisas do mar, co­mo pe­lo bem que sabia con­tar histórias cu­riosas, cróni­cas dos tem­pos pas­sa­dos, re­ce­bidas por tradição dos seus pais e que de boa von­tade trans­mi­tia aos moços, que o es­cu­tavam sem­pre aten­tos, em­be­bidos naque­las recor­dações, quase to­das glo­riosas para a gente do mar.

  Des­ta vez, porém, o ob­jec­to da nar­ração pare­cia ter en­con­tra­do in­cré­du­los en­tre o au­ditório, cu­jo cep­ti­cis­mo chegara a man­ifes­tar-​se por aque­la ex­cla­mação de dúvi­da, com que ab­ri­mos o primeiro capí­tu­lo des­ta sin­gela e de­spre­ten­siosa história. 

  O vel­ho protes­tara, co­mo vi­mos, pela ve­raci­dade do fac­to; mas ain­da as­sim, en­con­trou uma voz de in­cré­du­lo que redar­guiu: 

  -Es­sa lã me cus­ta a cr­er, ti' Cabaça. Eu sei que há muitas es­tran­has e es­quisi­tas cas­tas de peix­es lá por ess­es mares de Cristo. Vel­ho não sou eu nes­ta vi­da de pescador e, con­tu­do, pos­so já diz­er, sem me gabar, que ten­ho vis­to al­gu­ma coisa e que não an­do nis­to de to­do às ce­gas. Vi já al­guns peix­es lev­antarem voo co­mo os pás­saros, out­ros er­iça­dos de es­pin­hos, que nem ouriços; já ex­per­imentei o aba­lo que causam as tremel­gas vi­vas quan­do se lh­es to­ca com o pé, e até um dia me mostraram de longe o cha­fariz de água que fazem as baleias ao res­pi­rar, mas ago­ra as tais sereias... na ver­dade...peix­es que falam e que can­tam co­mo a gente!...

  -Que falam e que can­tam, sim, sen­hor, que falam e que can­tam. E en­tão que falar e que can­tar! Não é lá qual­quer coisa! Eu só que­ria que vocês ou­vis­sem o meu pai, que Deus ha­ja, con­tar o ca­so. 

  -Mas en­tão di­ga-​nos mais por miú­do co­mo is­so foi ex­clam­ou do la­do um jovem pescador, que se mostra­va ex­ces­si­va­mente in­ter­es­sa­do com a história e mais dis­pos­to do que o seu com­pan­heiro a acred­itar na ex­istên­cia do fab­uloso an­imal de que falara o vel­ho.

  O tio Cabaça sacud­iu fleu­mati­ca­mente a cin­za do seu volu­moso cachim­bo, so­prou ao tubo para o des­im­pedir, fez no­va pro­visão de taba­co e acen­deu-​o -tu­do is­to com movi­men­tos pau­sa­dos -e, de­pois de ex­pelir a primeira bafora­da, prin­ci­pi­ou, revestin­do-​se da de­vi­da gravi­dade, a nar­ração que se lhe pedi­ra. 

  -O ca­so que lh­es vou con­tar sucedeu, pe­los mo­dos, no tem­po em que meu avô era ain­da ra­paz. Vai por is­so... Eu sei lá!?...há mais de um cen­to de anos bem con­ta­dos. Tin­ham ido cer­ta tarde as com­pan­has para o mar. Nos lanços da man­hã a safra havia si­do pe­que­na, ape­sar de ter es­per­ado que a sardinha, fug­in­do à tro­voa­da que to­da a se­mana an­dara pe­lo ma