s on­das, de pe­que­na me cos­tumei a can­tar com elas. De­pois que a sorte me im­peliu nes­ta vi­da artís­ti­ca, er­rante e aven­tureira que ten­ho segui­do, não es­que­ci nun­ca as predilecções dos meus primeiros anos. Sou co­mo as aves aquáti­cas; an­do sem­pre jun­to às costas marí­ti­mas. A es­co­la em que apren­di foi a es­co­la do mar; não me quero longe deste mestre in­spi­ra­do que me en­si­nou a arte sub­lime da músi­ca. Parece-​me que lhe sei já com­preen­der os seg­re­dos to­dos; ca­da pra­ia rev­ela-​me um no­vo mis­tério de arte. As on­das do Adriáti­co, o mar da min­ha ter­ra, não can­tam co­mo as out­ras. O mar é co­mo o po­vo. Em ca­da país tem a músi­ca pop­ular um génio próprio, uma ín­dole es­pe­cial. As­sim tam­bém o mar. Ten­ho es­cu­ta­do as on­das de quase to­das as pra­ias da Eu­ropa. O mar Ne­gro, o Mediter­râ­neo, o Bálti­co, a Man­cha, o Atlân­ti­co, to­dos têm uma mod­ulação sua e que me parece já saber dis­tin­guir. Nuns é mais ma­jestosa e ter­rív­el a músi­ca das tem­pes­tades; out­ros têm mais suaves har­mo­nias nas noites sossegadas de cal­ma. Já vêem que eu e o mar so­mos anti­gos com­pan­heiros. Ele en­tende-​me e eu tam­bém o com­preen­do. Sosseguem, pois; eu não me ilu­do com a sua ag­itação des­ta noite. Bem ce­do o ver­emos tran­qui­lo. 

  Os pescadores não re­spon­der­am. Es­tran­has lhe de­vi­am pare­cer es­tas palavras, in­com­preen­síveis até. A mul­her que as pro­nun­cia­ra num tom de voz em que se rev­ela­va to­da a ex­al­tação dum carác­ter en­tu­si­as­ta e ar­dente, fala­va mais a si própria do que às rudes in­teligên­cias dos seus com­pan­heiros, nes­ta ex­traordinária ex­cursão marí­ti­ma.

  Pe­dro es­cu­ta­va, porém, aque­las palavras, com um en­tu­si­as­mo de artista apaixon­ado e co­mo que se lhe co­mu­ni­ca­va o fo­go ocul­to da imag­inação que as di­ta­va. So­bres­saltavam-​no, co­mo se lhe ofer­ecessem a in­es­per­ada solução de um enig­ma em que, muito havia, li­da­va a sua in­teligên­cia. É que o mar tam­bém lhe fala­va. Ele pressen­tia-​lhe uma lin­guagem que procu­ra­va adi­vin­har. Lon­gas ho­ras pas­sa­va nas pra­ias a es­cu­tar aque­le ru­mor melancóli­co e so­lene e per­gun­ta­va às vezes a si próprio o que o ret­inha ali. As palavras da can­to­ra pare­ci­am ter si­do a re­spos­ta aguarda­da, há muito, àquela táci­ta in­ter­ro­gação da sua con­sciên­cia. 

  Havia, pois, mais al­guém que, co­mo ele, es­cu­ta­va as on­das e se deli­ci­ava com a sua har­mo­nia? 

  Pas­sa­do al­gum tem­po, a noite, co­mo se quisesse con­fir­mar o prognós­ti­co da de­scon­heci­da, prin­ci­pi­ou a ser­enar um pouco mais, abran­dou a vi­olên­cia da ven­ta­nia e as on­das vin­ham já que­brar-​se com menos força nas areias da pra­ia.

  -Ve­jamos -disse a can­to­ra –, que lh­es dizia eu, home­ns sem con­fi­ança no mar? Aí temos o ven­to sul par nos aju­dar na vol­ta. A que dis­tân­cia es­ta­mos de Es­pin­ho? 

  -A légua e meia, Madama; ali mais adi­ante es­tão os pal­heiros do Fu­radouro. 

  -Volte­mos. Não lh­es disse eu que era desnecessário aprox­imar­mo-​nos tan­to da cos­ta? Ao largo! Ao largo! 

  Os pescadores obe­de­ce­ram-​lhe, o bar­co sul­cou as on­das afa­stan­do-​se da pra­ia, o ru­mor das vozes tornou-​se ca­da vez menos dis­tin­to, mais con­fusa a for­ma es­cu­ra do bar­co, até que en­fim tu­do se con­fundiu na es­curidão da noite e no ru­mor monótono das va­gas, já menos im­petu­osas. 

  Pe­dro ain­da por muito tem­po in­ter­ro­gou aque­las trevas e aque­le ruí­do con­fu­so do mar... 

  Era uma for­mosís­si­ma noite de lu­ar, aque­la! 

  A al­va­cen­ta ne­bri­na que se con­den­sara na at­mos­fera au­men­ta­va o